No More Mr. Nice Guy: A reconfiguração da Política Externa da Coreia do Sul
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| Cartoon by Rebel Pepper |
Após campanha para esquecer, Yoon Suk-yeol venceu as eleições presidenciais sul-coreanas por uma margem mínima. Num contexto de elevado descontentamento com as políticas económicas e divisões sociais emergentes, Yoon terá que lidar ainda com a expansão das capacidades militares da Coreia do Norte e a intensificação da rivalidade EUA-China.
A democracia sul-coreana assinala, este ano, 35 anos de vida. Apesar das heranças da Guerra Fria ainda permanecerem nesta península, das décadas sob regimes autoritários e de ter sido afetada pelas crises económicas globais, a Coreia do Sul tem demonstrado uma notável capacidade de resistência ao enfrentar de forma bem-sucedida estes desafios e ambiciona por um futuro ainda mais radioso, seguindo o caminho para uma democracia madura e prosperidade económica.
Sem a possibilidade de ser reeleito, Moon Jae-in deixou a Casa Azul no passado dia 9 de maio, e com o fim da sua presidência, é altura para um balanço da sua atuação. Quando assumiu o cargo em maio de 2017, a edição asiática da revista TIME saudou-o como "o negociador", o que se veio a confirmar, visto que a sua presidência ficou marcada por negociações e compromissos com Pyongyang e Pequim. À semelhança de Angela Merkel, Moon acreditava ingenuamente na cooperação económica e energética com países vizinhos que constituem uma ameaça à sua soberania na esperança de alivar as tensões, mas a retoma dos disparos de mísseis e testes nucleares por parte da Coreia do Norte no início deste ano evidenciam o fracasso da sua política de apaziguamento. A nível doméstico, Moon cessa funções com um dos mais altos índices de aprovação de sempre, e deixa o país com um forte senso de resiliência democrática em comparação com os anos anteriores à sua tomada de posse.
No dia 9 de março, o país foi a votos para escolher o novo Presidente. A disputa entre os dois principais candidatos presidenciais pautou-se por níveis, sem precedentes, de retórica tóxica, difamação e ações judiciais. Devido ao clima hostil, alguns analistas políticos apelidaram esta eleição como a Squid Game´s Election. A poucos dias da eleição, sondagens indicavam um empate técnico entre os dois candidatos e revelaram que ambos os candidatos têm mais críticos do que apoiantes.
O nome a memorizar é Yoon Suk-yeol. Representante do Partido do Poder Popular (conservador), até então principal partido da oposição, recebeu mais de 16,4 milhões de votos (48,56%). Em segundo lugar, ficou Lee Jae-myung, do Partido Democrático (liberal, no poder) e veterano na administração pública, que reuniu a preferência de 16,1 milhões de sul-coreanos (47,83%). A afluência às urnas ficou-se pelos 77,1%, num universo de 44 milhões de eleitores.
O novo presidente sul-coreano vai tomar posse num período turbulento para o país e o caminho que traçar pode vir a agitar a região. Especialistas em política internacional alertam que Yoon terá uma postura mais rígida em relação à vizinha Coreia do Norte, construirá laços mais estreitos com os Estados Unidos e o Japão e mostrará menos deferência em relação ao principal aliado do Norte, a China - posturas que refletem um azedamento da opinião pública sul-coreana em relação aos regimes comunistas de Kim Jong Un e Xi Jinping.
Tensão entre as Coreias pode reacender-se
Ao longo da sua campanha, Yoon defendeu uma postura mais contundente em relação à Coreia do Norte, significando um claro afastamento da abordagem adotada por Moon. As tensões voltaram a aumentar no início do ano, com a retoma dos testes de mísseis balísticos, incluindo um novo tipo de míssil hipersónico, provocando a condenação do Sul.
As conversações entre Seoul e Pyongyang estão interrompidas desde o 2018 North Korea-United States Singapore Summit. É improvável esperar qualquer progresso nas negociações de desnuclearização, a menos que o governo de Yoon apresente uma solução sofisticada que seja aceitável tanto para os Estados Unidos quanto para a Coreia do Norte.
Yoon criticou também a política subserviente de Moon, prometendo não alivar as sanções ou preparar um tratado de paz até que o Norte demonstrasse esforços na desnuclearização. Do que depender de Yoon, existirá sempre espaço para a diplomacia e o diálogo, o que não lhe impede de tentar alcançar uma paz que seja baseada numa forte postura de defesa nacional, e não de submissão. "Vamos construir uma poderosa força militar que pode seguramente deter qualquer provocação para proteger a segurança e a propriedade dos nossos cidadãos e salvaguardar a integridade territorial e a soberania da nossa nação", disse Yoon.
Especialistas alertam que uma postura mais dura com a vizinha Coreia do Norte pode piorar as relações intercoreanas. Alguns temem que as tensões militares possam retomar aos níveis de crise vistos em 2017, mas outros são mais pessimistas, como é o caso de Cheong Seong-chang, diretor do Centro de Estudos Norte-Coreanos do Instituto Sejong, que acredita que as relações possam "voltar ao relacionamento hostil da Guerra Fria".
Posicionamento da Coreia do Sul na rivalidade EUA-China
A vitória de Yoon mudará o relacionamento da Coreia do Sul com as duas superpotências rivais com quem manteve, nos últimos cinco anos, uma aliança de segurança com os Estados Unidos e um relacionamento económico crescente com a China.
Enquanto Lee sugeriu que tentaria equilibrar as duas parcerias, Yoon deixou claro qual ele vai priorizar. "A Coreia do Sul e os Estados Unidos compartilham uma aliança na luta para proteger a liberdade contra a tirania do comunismo", disse Yoon em janeiro, acrescentando que o país deve "reconstruir essa aliança".
Yoon propôs a implementação de um segundo sistema de mísseis antibalísticos, o que sem dúvida provocaria a fúria da China. Em 2016, a Coreia do Sul implementou o sistema de defesa norte-americano Terminal High Altitude Area Defense (THAAD) para se defenderem das ameaças dos mísseis norte-coreanos, o que na altura levou a um período de tensão diplomática com a China, que alegou que o sistema de mísseis colocaria em risco a sua própria segurança nacional.
Com a Administração Yoon, é expectável que as relações com a China voltem a deteriorar-se. Yoon elencou as vantagens de uma aliança mais próxima com os Estados Unidos, argumentando que poderia ajudar a Coreia do Sul a manter a sua vantagem face às "nações competitivas, incluindo a China".
Na cimeira realizada no ano passado, entre Moon e o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, ambos os líderes reafirmaram a sua aliança militar e concordaram em expandir a cooperação nas áreas da tecnologia, economia, ambiente e saúde. Com Yoon no poder, o desejo de uma maior cooperação mantem-se. Numa ligação telefónica, Biden convidou Yoon para visitar a Casa Branca e acrescentou que espera desenvolver relações bilaterais mais profundas com a Coreia do Sul e que "uma coordenação estreita em relação à política norte-coreana será importante".
Problemas em casa
Yoon enfrenta muitos desafios domésticos, incluindo a pandemia da COVID-19, a corrupção, a polarização política e a questão da igualdade de género, que se intensificou no período que antecedeu as eleições.
Enfrentando um mercado de trabalho hipercompetitivo e com o aumento dos preços da habitação, os antifeministas culpam as medidas adotadas pelo antigo executivo que, segundo eles, na tentativa de resolver a questão da desigualdade de género, acabam por favorecer as mulheres. Por sua vez, os feministas mencionam a violência sexual generalizada do país, as expectativas de género arraigadas e a baixa representatividade feminina nos cargos mais altos das empresas e na política como exemplos de como a discriminação contra as mulheres ainda está enraizada na sociedade sul-coreana.
Ambos os principais candidatos presidenciais se debruçaram sobre esta questão, com Lee a expressar o seu apoio à luta dos direitos das mulheres, enquanto Yoon procurava votos junto dos antifeministas, prometendo abolir o Ministério da Igualdade de Género e da Família.
Os antifeministas têm-se tornado num poderoso bloco eleitoral na Coreia do Sul. Em abril do ano passado, o Partido Democrata de Moon perdeu as eleições distritais nas duas principais cidades - Seoul e Busan - com as pesquisas à boca das urnas a revelarem que os jovens na faixa dos 20 anos mudaram o seu sentido de voto para o Partido do Poder Popular de Yoon. Na opinião de Kim Jiyoon, investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Sogang, "a diferença de género é mais evidente entre a geração mais jovem". Com a eleição de Yoon, teme-se que as divisões de género aumentem ainda mais e que o movimento pelos direitos das mulheres retroceda.

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