"Quanto mais as coisas mudam, mais elas ficam na mesma": O que será feito do divórcio das Coreias?

 



Diogo Ferreira Leite analisa a situação política na Península da Coreia trançando algumas hipóteses relativamente ao possível desenlace num impasse diplomático entre o Norte e o Sul – afirmando que à luz das informações do momento a manutenção do status quo na região parece o cenário mais provável.

Desde a morte do seu primeiro líder – Kim Il-Sung – que o regime norte coreano tem desafiado as espectativas dos vários analistas políticos e demonstrado a sua resiliência. O regime demonstra poucos ou nenhuns sinais de desgaste. A população demonstra poucos ou nenhuns sinais de real vontade de mudança, ou melhor, de a forçar. As forças armadas continuam subservientes ao grande líder. Apesar de vontade dos EUA e dos seus aliados na região (a Coreia do Sul e o Japão) de uma mudança de regime quer pela força da diplomacia ou das armas a China parece satisfeita com o status quo, sendo que uma reunificação da Coreia provavelmente levaria à colocação de tropas americanas no flanco sul da China. Tropas americanas na fronteira com o território chines é impensável para Pequim.

Após a queda do Muro de Berlim e o fim da Guerra Fria muitos acreditaram que a queda do regime de Pyongyang era algo inevitável. Era o Estado comunista mais pobre e detinha uma elevada dependência da URSS – que já nem sequer existia. A própria Secretária de Estado do Presidente Clinton, Madeleine Albright, chegou a visitar o país e a delimitar algumas medidas conjuntas de cooperação em alguns projetos com a Coreia do Sul.

Durante os anos de Bush as relações novamente deterioram-se (com a proclamação do dito Eixo do Mal) e o status quo atual instalou-se. Numa tentativa de assegurar a sobrevivência do regime em oposição à Hegemonia Liberal Norte Americana foi feita uma aposta na nuclearização do país. Com isto tudo mudou.

Este Estado “insignificante” tornou-se numa potência nuclear. Numa potência nuclear sem medo de ameaçar constantemente o Ocidente e os seus vizinhos com o uso deste armamento ou, de forma mais assustadora, ameaçar colocar estes dispositivos no mercado negro – fora de qualquer tipo de controlo ou regulação internacional.

Em contrapartida, em Seoul existe uma clara vontade de procurar um maior entendimento entre as duas partes da Península. Naturalmente que nenhum Estado soberano deseja ter um Estado vizinho tão agressivo na sua política de vizinhança. A ameaça permanente de uma possível invasão do Norte forçou o Sul a existir um constante estado de alerta - sendo que ainda nos dias de hoje os EUA mantêm uma presença militar considerável no território.

A meu ver o regime da Coreia do Norte e o balanço de poderes na Península só se vai alterar substancialmente de três formas distintas.

a)     Uma revolução armada ou Golpe de Estado no próprio país- provavelmente através de uma revolta no seio das Forças Armadas. 

b)   Uma intervenção militar Norte Americana com apoio da Coreia do Sul e do Japão. Que, apesar da grande disparidade de Forças convencionais entre a Coreia do Norte e o Ocidente, provavelmente levaria a uma penosa e demorada guerra na Península. Onde o uso de armamento nuclear e armas químicas por parte do regime de Kim é mais do expectável. De sublinhar que uma intervenção americana na Península instigaria quase certamente uma intervenção chinesa - tal como se verificou na primeira Guerra da Coreia. Cenário este que inevitavelmente conduziria a uma Terceira Guerra Mundial.

c)     O último cenário, e também o mais otimista, consiste numa mudança estrutural na postura da China em relação à Coreia do Norte. A perda do seu único aleado estratégico seria a melhor e talvez a única real força de mudança da região. A defesa de "pé atrás" de Pequim ao regime norte coreano tem sido o seguro de saúde do regime e o principal alicerce de salvação do país.

Mesmo com a aparente aproximação durante os anos de Donald Trump. o regime não se demonstra interessado em perseguir uma aproximação ao resto da Sociedade das Nações. A nível de perceção externa parece somente interessado em fazer constantes demonstrações de poder e força. A região parece mergulhada num ciclo perpétuo de possíveis aproximações e constantes deceções. É notável como é que em mais de 30 anos tão pouco verdadeiramente se alterou na relação entre o Norte e o Sul. Pyongyang parece verdadeiramente impermeável ao resto do mundo e em congelar o país no tempo.  

Talvez um dia a Península possa sonhar pela reunificação e pelo fim da dinastia Kim. Aos dias de hoje, essa realidade não é de todo previsível…

Enfim tal como o filosofo francês Jean-Baptiste Alphonse Karr escreveu em 1849 “plus ça change, plus c'est la même chose “ – the more things change, the more they stay the same.


Diogo Ferreira Leite, nº227689, 3º ano de Licenciatura em Ciência Política

 

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