Pelo Khan abaixo: A crise política no Paquistão
Hugo Oliveira discorre acerca da crise política paquistanesa, assente na dissolução da Assembleia Nacional do Paquistão e na exoneração do Primeiro-Ministro Imran Khan.
Poucos líderes democraticamente eleitos no Paquistão tiveram uma vida longa ao leme da nação. Na verdade, nenhum dos antecessores de Khan sobreviveu a um mandato completo desde a fundação do país, há 75 anos.
Imran Khan não é um Primeiro-Ministro comum, evidenciando uma coragem excepcional. Tentou erradicar a corrupção e desenvolveu uma nova política externa completamente independente. Acima de tudo, Khan acabou com o sistema bipartidário corrupto e podre que dominou a política democrática do Paquistão durante décadas. Essa sua cisão, logicamente, trouxe-lhe muitos inimigos, alguns internos, outros externos.
Nas eleições de 2018, foi o Movimento Paquistanês pela Justiça - PTI - que, defendendo bandeiras do nacionalismo, populismo, regionalismo e democracia islâmica, se consolidou como a maior força política do Paquistão e elegeu Imran Khan e Arif Alvi, como Primeiro-Ministro e Presidente, respectivamente.
Desde esse momento que a política externa urdu tem incentivado um clima pacifista nas relações com a Índia no conflito da Caxemira, ao mesmo tempo que tinha a mesma acção relativamente ao conflito do Afeganistão. Também as relações paquistanesas com Washington, de Trump, foram fortalecidas, bem como com Moscovo e Pequim.
Ora, assinalado o fim da administração Trump, a estratégia de política externa americana fez-se notar pela falta de cooperação, o que resultou na deterioração das relações com potências em ascensão, tal como o Paquistão o vinha a evidenciar.
Em Fevereiro de 2022, deu-se o tão aguardado encontro entre Khan e Putin. Em Março, iniciaram-se os processos de moção de censura contra Khan, liderados pela Liga Muçulmana do Paquistão - partido controlado pelo banqueiro pró-EUA Nawaz Sharif, que exercera o cargo de primeiro-ministro até o escândalo dos Papéis do Panamá ter divulgado o seu nome associado a crimes de corrupção.
No passado dia 30 de Março, o líder do Movimento Paquistanês pela Justiça, Faisal Vawda, alegou que já se encontravam em marcha planos para assassinar Khan. Com a finalidade de travar a célere radicalização política, e a pedido do próprio Khan, o presidente Alvi dissolveu a Assembleia Nacional no dia 3 de Abril, exonerando Khan e agendando eleições para os três meses seguintes. Se por um lado, a sua base fiel de apoiantes demonstrou indignação relativamente a esta tomada de decisão, considerada radical, os seus oponentes aproveitaram para inverter a situação e formalizaram uma acusação contra o Movimento Paquistanês pela Justiça, por conspiração e golpe branco, apesar de tudo ter sido no feito nos termos da Constituição do Paquistão.
A situação económica do Paquistão
A situação económica do Paquistão deixou o país nas mãos dos credores, especialmente a Arábia Saudita e a China, dois regimes com princípios muito diferentes dos seus. Esta relação com a China é a principal razão pela qual Khan não se manifestou publicamente contra as violações de direitos humanos sobre os muçulmanos uigures, em Xinjiang. Khan também escolheu o silêncio sobre a tragédia em curso no Iémen, onde centenas de milhares de pessoas morreram como resultado directo ou indirecto da guerra alimentada pela Arábia Saudita.
O Primeiro-Ministro paquistanês manteve igualmente uma posição independente relativamente à questão afegã. Desde a queda do governo Cabul para os Talibã, em Agosto do ano passado, que existem tensões com Washington quanto aos exercícios americanos no espaço aéreo do Paquistão. De salientar que tanto Khan, como os EUA divergem quanto ao futuro dos bens estatais afegãos congelados por Washington, num momento em que os fundos são desesperadamente necessários para aliviar a fome e a pobreza no Afeganistão.
A relação com os EUA
Os EUA tratam o Paquistão como um estado vassalo desde a sua independência, no ano de 1947. A CIA projetou o golpe que pôs fim a 11 anos de governo civil, em 1958, e instalou o primeiro ditador militar do Paquistão - Ayub Khan. Em jeito de aprovação, meses mais tarde concretizou-se a visita do então presidente dos EUA, Dwight Eisenhower, ao Paquistão.
É, no mínimo, curioso comprovar que apenas cinco presidentes dos EUA tenham visitado o Paquistão - Eisenhower, Lyndon Johnson, Richard Nixon, Bill Clinton e George W. Bush - e nunca durante períodos de governo civil. Mais curioso ainda é o facto de a ajuda financeira dos EUA ao Paquistão disparar em períodos de ditaduras militares, contrariando as alegações de que os EUA apoiam instituições democráticas.
O Paquistão tem duas opções: ou opta pela própria soberania e por um rumo em direcção à multipolaridade, como foi feito sob Imran Khan, ou regressa ao nível de um Estado-Satélite das potências ocidentais.

Comentários
Enviar um comentário