O Sacrifício de Somaliland


Rúben Gomes Domingos defende que o tratamento dado a Somaliland pela comunidade internacional reflete uma injustiça tremenda perante um povo que luta pelo seu direito a autodeterminação.

 

    Entre a década de 80 do século XVIII e a Primeira Guerra Mundial, as grandes potencias coloniais europeias sentaram-se à mesa por diversas vezes para discutir o futuro das suas tradições colonialistas, neste caso, naquela que ficou conhecida como a Partilha de África. Através desse processo de divisão do continente pelos diversos impérios europeus, acabámos por estabelecer, pelo menos na sua grande maioria, as fronteiras dos países africanos contemporâneos.

     Uma das exceções foi na Península Somali, mais conhecida como Corno de África. Aqui estabeleceram-se as colónias italianas da Eritreia Italiana (hoje Eriteia) e Somália Italiana, a colónia francesa da Somália Francesa (hoje Djibuti), a colónia britânica da Somália Britânica, e o estado independente da Etiópia. Destes, após o processo de descolonização de África, decidiram todos pela sua independência, com a exceção da Somália Britânica, que após um curto período de 5 dias de independência, aprovou através de referendo a união com o território da Somália Italiana, formando a atual República Federal da Somália.

     “Esta foi uma decisão de que a Somaliland se arrependeu quase de imediato”. Numa região ainda dominada por hierarquias tribais e clãs, cedo se fizeram sentir as dinâmicas de poder entre os mesmos. Estas quezílias acabariam por culminar no golpe de estado de 1969 e, consequentemente, na subida ao poder do ditador Mohamed Siad Barre. Após anos de controlo ditatorial, Siad decidiu entrar em guerra com a Etiópia, aumentando ainda mais o descontentamento da população que resultaria na formação de grupos de guerrilha e tentativas de golpe de estado. Assim iniciou-se a Guerra Civil da Somália, conflito que se tem mantido ativo até aos dias de hoje, apesar do seu desenvolvimento e dos beligerantes.

     Um dos resultados da guerra civil foi a criação da autoproclamada República de Somaliland, no ano de 1991. O que parece uma ocorrência quase banal no decorrer da história mundial, em que diversas regiões declaram unilateralmente a sua independência sem que daí surja algo de realmente bom para as populações que se encontram submetidas, encontra aqui a sua exceção. A República de Somaliland separou-se dum estado falhado, envolto numa guerra civil à qual não se vê fim e cujo território se encontra sob controlo de clãs rivais, governos fracos e cruéis, e piratas, e materializou-se numa espécie de pequeno paraíso.

     Desde a declaração de independência que a República de Somaliland se tem transformado numa democracia funcional, contrastando com grande parte do continente africano e apesar da falta de reconhecimento internacional. Esta falta de reconhecimento tem sido o principal problema, mas, ao mesmo tempo, um dos maiores pilares de estabilidade do país.

    Ao cabo que em 1960, após a independência do Reino Unido, conseguiu o reconhecimento internacional por parte de 35 países, desta vez, após a declaração de independência em 1991, não conseguiu que nenhum outro país adotasse a mesma postura. Isto criou no país um isolamento do resto do mundo, seja pela falta de conexão aos serviços de correios internacionais, à falta de validade do seu passaporte, mas também pela falta de acesso a agências internacionais, como o Fundo Monetário Internacional ou o Banco Mundial, e a financiamento estrangeiro direto no país. Esta situação fez com que, por um lado, a República de Somaliland seja um dos países mais pobres do mundo, mas por outro, devido à pouca circulação de dinheiro pelo país, faz também com que seja um dos mais seguros do continente africano, tendo taxas de criminalidade parecidas com as de cidades americanas.

     Dá-se também o caso que o país e o povo estão comprometidos com os ideais da democracia, assim como da segurança e desenvolvimento do país. O país conta com sistemas públicos de educação e de saúde funcionais, a par da sua democracia cujas eleições têm sido um exemplo para o resto do continente, nomeadamente na facilidade de transição entre governos de diferentes líderes e partidos políticos, assim como nos baixos níveis de corrupção.

     No fundo, a República de Somaliland tem dado todos os sinais de que está disponível para reger-se pelos padrões societários de um país desenvolvido e funcional e lutado contra todas as adversidades para merecer o reconhecimento internacional que permita, por fim, tirar o país da pobreza, dando-lhe acesso a investimento que até agora não tem existido. Mas a verdade é que nenhum país está disposto a dar o primeiro passo com medo de que isso despolete uma cadeia de movimentos independentistas no continente africano. Por isso, sofre o país e o seu povo que apesar da pobreza e das dificuldades teve a audácia de sonhar com um futuro melhor. É este o sacrifício de Somaliland.


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