O Ocidente não entende o cisma: enquanto vê os formalismos do Direito e dos Estados, a Rússia vê civilizações e confrontos espirituais
Esta invasão à Ucrânia vem, de novo, comprovar que existe uma desigualdade fundamental, e não é (apenas) a do poderio militar. É a espiritual. Manuel MORGADO alerta neste artigo que, mesmo que uma batalha pontual seja perdida, a Rússia é capaz de vencer na continuidade do longo prazo perante um Ocidente perdido espiritualmente.
Samuel Huntington escrevia, no final do século XX, em The Clash of Civilizations?, que os grandes conflitos do mundo pós-Guerra Fria não derivariam de motivos político-ideológicos ou sócio-económicos, mas que seriam antes de ordem civilizacional. Isto é, que lhes estariam subjacentes causas mais profundas, como as coordenadas culturais e espirituais fornecidas pelas grandes religiões. Desse modo, tratou de compor o seu mapa civilizacional, onde, muito claramente, a Rússia, na sua genética eslavo-ortodoxa, não faz parte do mundo ocidental, de matizes cristãs (católica e protestantes) e raiz greco-romana.
Fonte: https://www.cato-unbound.org/2017/02/16/zack-cooper/clash-asian-civilizations/
O actual conflito apenas o comprova, já que a Ucrânia é um torn country, um cleft country, com território situado na fronteira partilhada pelas duas civilizações, ao que se junta também a sua localização na Rimland de que falou Nicholas J. Spykman.
Não obstante tudo o resto, aparenta provavelmente certo o facto de ser dessa orientação axiológica, promovida pela religião, que emerge também a sustentabilidade dos povos e civilizações.
Ora, perante isto, a Rússia parece estar vantajosamente ciente do que constitui essa, necessária, génese civilizacional, ao elevar os vectores cultural, religioso e espiritual sobre os demais. Precisamente aqueles outros que o Ocidente mais parece valorizar, como o tipo de regime político, o modelo económico ou a quantidade de direitos que se redigem num determinado documento. E, aqui cavalgando sobre o eurasianismo explanado por Halford Mackinder, convence-se de que Moscovo representa o sol da «Heartland», que emana a luz salvadora do mundo. Enquanto o Ocidente - ainda que o negue - se parece ter perdido pela tentadora sugestão de Francis Fukuyama, enfeitiçado nas ilusões de uma infalibilidade racionalista, do linearismo evolutivo, do modernismo, do cientismo e do progresso ilimitado, que só poderiam rimar com a ocidentalização do mundo. Daí a pretensão russa de uma ordo pluriversalis que cure essa hegemonia unipolar que acusam estar em vigor.
Fig. 2 - Mapa de Mackinder e a Heartland («Pivot Area»)
Fonte: https://airpowerasia.com/2020/07/22/belt-and-road-initiative-strategic-goals-now-a-debt-trap-security-implications-india/
É como se a Rússia, carente de tudo o resto, tenha, pelo menos, - instrumentalizando a linguagem de Jean-Paul Sartre - essência, enquanto o Ocidente, tendo tudo o resto, apenas existe. A Rússia move-se - independentemente das considerações que façamos acerca deles - por fins, e o Ocidente, ficou preso no deslumbramento proporcionado pelos meios de que dispõe.
Assim, com um olhar realista, temos duas distintas mundivisões: uma civilização russa, consubstanciada no simbolismo do seu milenarismo e permanentemente moralizada pela sua metafísica, aos quais forja uma noção - com raízes, lá está, na sua ortodoxia cristã - passionária, que representa a capacidade de sofrer, de ser mártir do seu eventual triunfo civilizacional. E, deste lado, um Ocidente que tem um vasto inventário, desde instrumentos jurídicos como constituições e tratados, às capacidades económica e científica, que aparecem como remendos sobre um vazio espiritual.
Mais: enquanto o Ocidente vê na Federação Russa mais um Estado, a Rússia vê civilizações nessa arena geopolítica e metapolítica. O mais longe a que, deste lado, chegamos aquando de uma análise ao que representa esta invasão e a própria Rússia, aponta sempre aos «objectivos imperialistas», de «intenções revivalistas» da União Soviética, ou, nas análises mais ambiciosas, do próprio Império Russo seu antecessor. Mas permanecemos sempre numa dimensão geo-estratégica, somente territorialista e, de certo modo, sempre temporal, quando, na verdade, parece haver uma grande dose de misticismo e quase transcendentalismo subjaz a este ego russo - sejam prova disso as recentes declarações do mais alto representante da igreja ortodoxa russa acerca da guerra, ou as considerações do principal ideólogo do Kremlin, Aleksandr Dugin.
Fonte: https://www.geopolitica.ru/pt-br/article/ideologia-russa-do-futuro
O nosso entendimento sobre a Rússia mantém-se nos termos com que Winston Churchill a caracterizava: “uma charada envolvida em mistério dentro de um enigma”. Daí que até o seu passado seja imprevisível.
Ora, numa tensão entre o tradicionalismo messiânico dos Velhos Crentes, pelo «reino ideal», e o jurisdicismo institucional do «reino visível», temerei sempre a vitória do actor que tem - ou que, pelo menos, sente ter - aquela galvanizadora essência. Aparentemente tão forte que leva quase a um esoterismo «imaterialista», um desdém pelos tais assuntos terrenos e circunstâncias que nos desarma, a nós ocidentais modernos.
Essa, sempre mais poderosa, capacidade transcendentalista é também o que lhe garante, mesmo que de nada mais se aproprie, um vigoroso hard power, pai dos poderes geopolíticos, movido pelo seu telurismo de aversão ao atlantismo, que se manifesta nas ameaças e avanços físicos pouco preocupados com soberania de Estados, quanto mais com Estado de Direito. Enquanto que ao Ocidente, talvez apenas salvo por uma semelhante megalomania americana, quase já só vá restando soft power - o que, agora vemos, se presta como um erro cometido.
Portanto, talvez caiba às Nações ocidentais não apenas estudar a Quarta Teoria Política, mas beber uma dose de realismo geopolítico, onde entendem que a paz, a liberdade e a cooperação são meios - preferíveis, sim - cronicamente carentes do mais importante: valores, sejam o Bem, a Verdade, a Justiça, ou outros. Como também, reaprender um pouco da «passionariedade» de que a resiliência russa se alimenta, típica dos povos que estendem a sua eventual glória para além de um conflito.
Manuel Morgado | 227710
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