A cavalo dado não se olha o dente: China no Continente Africano
Fonte: Victor Ndula via Twitter
https://twitter.com/ndula_victor/status/1016583447593222149?lang=ar-x-fm
Neste artigo, Carolina Midões Santos irá analisar as
relações diplomáticas entre a China e os países do continente africano,
explorando as suas dinâmicas relativamente à ação de propaganda e alastramento
da cultura chinesa em África e sua penetração nas mais diversas esferas.
O uso do Sharp Power
por potências não democráticas como é o caso da Rússia e da China está em
crescimento. Este crescimento está ligado à eterna dicotomia entre estados
autoritários e estados democráticos, especialmente estados de índole ocidental.
Este tipo de power é utilizado como mecanismo de influência na cena
internacional por estes regimes tendo como metas principais a limitação de
discurso livre e a distorção daquela que muitas vezes é a realidade, procurando
promover um afastamento das populações e Estados em prol de uma aproximação com
os regimes autoritários. A censura
e a manipulação visam minar a integridade de instituições independentes. A
China é, por razões óbvias, grande adepta deste tipo de power e qual o
melhor espaço geográfico do que África para o exercer? Um continente caracterizado
por séculos de instabilidade económica, política e social e onde as democracias
ocidentais e o seu estilo de vida continuam a ser vistos de lado devido ao seu passado
colonialista em comum.
Entre Oriente e Ocidente, a luta pela supremacia na cena
internacional é recorrente, sendo África um território geopoliticamente
apelativo pela sua riqueza em recursos naturais e acesso fácil a políticos
corruptos. As relações chino-africanas estendem-se aos 54 países do continente
existindo obviamente Estados com quem a China detém ligações mais profundas. Destes 54 países, 12 detém dois terços do investimento total de empresas privadas chinesas (Egito, Nigéria, África do Sul, Angola, República do Congo, Zâmbia, Gana, Argélia e República Democrática do Congo).
O elevado
número de Institutos Confúcios espalhados pelo mundo têm também impacto na
forma como é “vendida” a imagem da China, especialmente para um público tão suscetível
como os estudantes universitários. Estes Institutos promovem cursos de língua,
festivais culturais, programas de intercâmbio assim como discussões sobre temas
relacionados ao país. Em Portugal, por exemplo, as principais universidades têm
um Instituto Confúcio. Em África não é diferente. O peso da cultura chinesa tem
se vindo a instalar no meio académico e no dia a dia dos cidadãos africanos nos
últimos anos. Em 2019 existiam já 53 Institutos Confúcios em território africano
e o número de bolsas de estudo atribuídas pelo Estado Chinês ultrapassou as atribuídas
pelos Estados Unidos da América, mesmo nos países africanos onde a língua
oficial é o inglês.
O Governo chinês tem, no entanto, uma tarefa em mãos que se
pode revelar difícil sendo que não existem grandes relações de afinidade linguística
ou cultural entre si.
A China tem vindo a ganhar território nos meios de
comunicação africanos sendo que os média ocidentais se foram afastando do
continente. Diversas
empresas de média chinesas, nomeadamente a empresa estatal Xinhua e a China
Global Television Network, estabeleceram-se em regiões africanas, especialmente
na África Oriental. Através deste alastramento dos média chineses, o Governo do
país procura manipular a imagem que os cidadãos estrangeiros têm da China,
procurando transmitir uma imagem positiva do país e da sua população. Investem
assim em agências de notícias locais, a quem muitas vezes disponibilizam as notícias
de forma gratuita. As notícias que chegam ao público é filtrada de modo a
não existir uma interferência direta em temas locais de forma crítica como assuntos
diplomáticos ou conflitos entre países, focando-se apenas em noticiar aspetos
positivos da ação chinesa nas mais diversas áreas.

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