Myanmar: perpetuação de um genocídio em pleno século XXI
No presente artigo, Ana Maria Lourenço discorre sobre a atual conjuntura de Myanmar, com especial foco no genocídio consciente da etnia rohingya, atualmente em curso neste território.
A dicotomia existente entre a intervenção humanitária e a soberania do estado é utilizada como pretexto para que os estados permaneçam impunes diante as graves violações dos direitos humanos praticados à sua própria população. Myanmar é um exemplo perfeito de um estado que sistematicamente pratica um conjunto de atos violentos à sua população, nomeadamente aos muçulmanos rohingyas.
Em primeiro lugar, é pertinente contextualizar a questão étnico-religiosa do país. Este estado reconhece a existência de 135 grupos étnicos, cujo grupo maioritário são os birmaneses (68%). No que diz respeito à religião, três predominam: budismo (87,9%), cristianismo (6,2%) e, por fim, o islamismo (4,3%). A multiplicidade de nações pode ser interpretada como uma bênção, mas para certos povos torna-se uma ‘maldição’, capaz de provocar discriminações e atos de violência persistentes.
Nesta situação, aplica-se o conflito
existente entre os rohingyas e Myanmar. Considerados uma minoria étnica, habitam,
principalmente, no estado de Rakhine, no oeste de Myanmar e estima-se que constituem
cerca de 1 milhão de pessoas. Esta minoria tem fugido
de Myanmar em grande número, muitas vezes para países em desenvolvimento, como
o Bangladesh, Malásia e Tailândia. Estes movimentos migratórios provocaram no
Bangladesh uma preocupante crise, que se deve às mais de 500 mil pessoas
expatriadas.
A conjuntura dos rohingyas remonta
há dois séculos e pode ser descrita em três fases: pré-colonial, colonial e
pós-colonial. Em tempos pré-coloniais, o reino
independente de Arakan (atualmente conhecido como Rakhine), foi povoado por
marinheiros muçulmanos entre 788 e 810 d.C. e depois por bengalis entre o
século XV a XVII. Durante este tempo, os rohingyas e os arakaneses (população
de Rakhine) viviam em harmonia, contudo, a situação mudou após a colonização
britânica em 1825. A tensão acentuou-se durante a Segunda Guerra Mundial,
quando os rohingyas declararam lealdade aos britânicos, enquanto os arakaneses
apoiaram os japoneses.
Durante a ocupação japonesa em
Myanmar, a
população rohingya começou a sofrer os primeiros atos de ódio,
por parte de monges budistas ultranacionalistas. Apesar do budismo ser
conhecido como a religião da compaixão, harmonia e paz, estes incitam uma
campanha de ódio, preconceito e racismo para com os rohingyas. Após a
independência de Myanmar, em 1948, a campanha anti-rohingya persistiu, marcada
pela discriminação e negação dos
direitos de cidadania. Eventualmente, em 1978, o sentimento de ódio
perante a etnia estava consolidado, culminando numa
operação militar com o objetivo de remover do território o máximo de rohingyas
possíveis, levando à fuga de 250 mil pessoas para o Bangladesh.
As autoridades de Myanmar foram
acusadas de perseguição, tortura e assédio contra os
muçulmanos residentes em Rakhine, por parte do Bangladesh e da comunidade
internacional. Diante da pressão da comunidade internacional, estabeleceu-se um
acordo de repatriação com o Bangladesh, resultando no retorno da maioria dos
rohingyas. No entanto, três anos depois, Myanmar promulgou uma lei, em 1982,
que negou a cidadania da minoria em questão, colocando 800 mil pessoas
em condição de apátridas. Em consequência, os rohingyas são
reconhecidos como imigrantes ilegais e não como cidadãos dignos de direitos.
Anos mais tarde, em 2012, iniciou-se
um novo conflito quando três jovens muçulmanos violaram, roubaram e
assassinaram uma mulher de Rakhine e o subsequente assassinato de dez homens
rohingyas. Após estes dois incidentes, registaram-se 77
pessoas mortas e 109 ficaram feridas. No total, 4822
casas, 17 mesquitas, 15 mosteiros e 3 escolas foram queimadas.
Apesar do governo alegar ter tomado todas as medidas necessárias para evitar a
reincidência dos ataques, um novo conflito eclodiu em outubro do mesmo ano. Em
consequência, 84 pessoas perderam a vida, 2950 casas foram destruídas e 14
edifícios religiosos foram queimados.
Em 2017, registou-se o auge da
crise, quando
as forças policiais e militares de Myanmar atacaram a minoria rohingya
muçulmana. A justificação para o ataque constituiu numa
retaliação devido aos ataques do Exército de Salvação de Arakan Rohingya (ARSA)
em alguns postos militares. A motivação por detrás do ataque é desconhecida,
mas é inegável que a resposta do governo foi desproporcional. Neste mesmo ano, mais
de 700 mil rohingyas fugiram para o Bangladesh
para escaparem ao que foi chamado de ‘campanha de limpeza étnica’ que envolveu
violações em massa, mortes e casas queimadas.
Posteriormente, em 2019, a Gâmbia
abriu um processo no Tribunal Internacional da Justiça, acusando Myanmar de
genocídio de rohingyas muçulmanos. O Tribunal confirmou as disposições da
Convenção sobre o Genocídio de 1948, relatando que Myanmar “causou
danos irreparáveis aos direitos dos rohingyas”. Como
tal, foi ordenado que tomassem todas as medidas necessárias para garantir
que os militares não cometessem ataques de violência
para com os rohingyas e que parassem de destruir as provas de genocídio. Em
resposta, o governo reiterou que a violência foi uma consequência do conflito
entre as duas comunidades, tendo afirmado que nunca praticou uma política de
violência contra os rohingyas muçulmanos.
Como resposta aos ‘ataques’ da
comunidade internacional, Myanmar sugeriu um programa de relocação como uma
possível solução, todavia, a comunidade internacional não manifestou o seu
apoio a esta proposta. Ao invés disso, a ONU aconselhou a reconciliação entre
as duas comunidades, através de um programa de integração. Este programa só
funcionará, caso os rohingyas e a população de Myanmar estejam dispostos a
aceitar as suas diferenças e a respeitar a identidade e a cultura de cada um.
Todas as tentativas de alcançar soluções, ignorando o cerne do problema –
integração política – são improváveis de trazer a paz e a estabilidade. Esta
integração política só acontecerá a partir do momento em que o governo de
Myanmar comece a considerar os rohingyas como cidadãos dignos de liberdade, paz
e autonomia.
Nesta situação conflituosa,
aplica-se um pensamento de George Orwell que passo a citar: “a maneira mais
eficiente de destruir um povo é negando e obliterando o direito à própria
compreensão da sua história”.

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