Neutral ou não neutral? Eis a questão - O Paradigma Suíço e o equívoco mediático
Neste
artigo Carlos Sousa Cordeiro analisa e expõe a realidade sobre a aplicação de
sanções por parte de uma nação neutra, a Suíça, explorando assim o que
significa a neutralidade para a Suíça e o verdadeiro significado da aplicação
de medidas coercivas por parte da Confederação Helvética à Federação Russa e de
como estas foram divulgadas pela média ocidental.
O
Estado Suíço é reconhecido internacionalmente pela sua posição neutra, um
paradoxo, um Estado isolado e conectado ao mesmo tempo, tudo à sua maneira. Lar de
diversas organizações, associações e entidades internacionais de diversas áreas
desde as Nações Unidas na Europa até à FIFA e a Cruz Vermelha ou até mesmo a União Internacional de Inclinos, ou
seja, um conjunto variado de organizações e entidades, de múltiplas origens e
funcionalidades. E é ainda reconhecida por ser uma intermediária neutral e anfitriã
das principais conferências e tratados internacionais.
Contudo
apesar de todo este internacionalismo, apenas em
2002 aderiu às Nações Unidas por exemplo e estes contrastes verificam-se na
neutralidade suíça também.
A
neutralidade suíça tem origem na sua derrota contra a França em 1515 e foi
reforçada pela Paz de Vestefália, até à altura a Suíça contou com uma política
expansionista, ambicionando territórios no norte da Itália, sul da atual Alemanha,
na altura Sacro Império Romano Germânico e no leste da França e tal neutralidade
foi reconhecida oficialmente a nível internacional com o Tratado de Paris em
1815, desde então a Suíça não participou em qualquer guerra estrangeira (Porém
não impediu que mercenários suíços continuassem a ser formados e enviados para
o estrangeiro, como é possível ver hoje com a Guarda Suíça do Vaticano).
A
neutralidade suíça é considerada um dos principais valores da política externa
da Suíça, não devendo então a Suíça envolver-se em conflitos armados ou
políticos entre outros estados, esta neutralidade foi autoimposta (ou seja a
Suíça não foi neutralizada como por exemplo a Alemanha e o Japão após a Segunda
Guerra Mundial) e com objetivos de garantir à segurança externa e à paz e contribui
para concretização do artigo 54º da Constituição Suíça: o Alivio da necessidade
e da pobreza no mundo, a Promoção do respeito pelos direitos humanos e pela
democracia, Promoção da convivência pacífica dos povos e a Promoção da Preservação
dos recursos naturais.
A
Suíça e a sua neutralidade já foram postas em causa em diversos momentos como o
papel suíço durante a Segunda Guerra Mundial, o poder e influência sobre e através
da Cruz
Vermelha Internacional, o
ouro e arte pilhada pelos nazis, recusa de refugiados judeus, as ligações
com a operação de espionagem americana “Gladio”, os laços económicos com
regimes autoritários, exportação em massa de armas para outros países, e ainda o
seu papel com bancos ou empresas como a Crypto AG no seu escândalo
de espionagem.
Mas
como é que o governo suíço justifica a neutralidade? Para o executivo helvético a
neutralidade suíça ou como preferem chamar a lei da neutralidade, baseia-se
apenas no restrito
princípio de não favorecer militarmente nenhuma parte em guerra, exceto
claro se o Estado Helvético for atacado. No sentido mais amplo apenas se inclui
todas as medidas tomadas pela Suíça
para proteger a credibilidade e a eficácia da sua neutralidade e usar a
mesma como um amplo campo de ação para responder aos desenvolvimentos
internacionais.
Sendo
assim a Suíça pode tomar qualquer tipo de ação a nível internacional exceto
favorecer militarmente um dos envolvidos numa guerra, estando por tanto
proibida (auto proibida) de fornecer material de guerra ou permitir a
utilização do território suíço para beneficiar um dos lados.
A
neutralidade suíça também é conhecida por ser uma neutralidade armada, ao
contrário de muitos estados neutros ou neutralizados, a Suíça possui
forças armadas bem preparadas (inclusive existe serviço militar obrigatório)
e altos investimentos no setor da defesa. A neutralidade também assumida pela Suíça
impede que a mesma adira a organizações internacionais de caracter militar como
a OTAN.
O
executivo helvético reforça inclusive que não há uma lei internacional que
obrigue a Suíça a ser assim, é o próprio
estado que cria e exerce o seu critério e determina a neutralidade com bases
especificas em cada caso individual, por exemplo a Suíça participa
militarmente em missões de segurança da ONU com a justificação de que há como
objetivos e bases a restauração da paz mundial.
Com
os acontecimentos iniciados em finais de fevereiro de 2022, a Suíça sentiu-se obrigada a
aplicar sanções, tanto por pressão interna como por pressão externa e por consenso
do próprio executivo de que os valores
da paz, da democracia e dos direitos humanos e do direito internacional haviam sido
violados. Mas ao contrário do que a média ocidental projetou, do
abandono da neutralidade suíça, é totalmente o aposto, é apenas mais um
conjunto de ações sancionatórias aplicadas a nível económico e que não
favorecem militarmente nenhum dos lados, além disso, a sua ação tem como intenção defender o
direito internacional, sendo assim, a neutralidade suíça foi efetiva e não
falhou, mantém-se e não foi abandonada.
Esta
sanções não são as primeiras nem serão as últimas aplicadas pelo Estado Suíço, antes
de aderir à ONU, aplicou ao Iraque e ao Afeganistão. E desde 2003 que a Suíça
aplica todas as sanções decididas pela ONU como as impostas novamente ao Iraque e
as impostas à Líbia, Serra Leoa, Libéria, Sérvia, Montenegro, UNITA (Angola) e
até mesmo já declarou ilegais diversas organizações entre elas a Al-Qaeda, não permitindo
que façam negócios ou guardem dinheiro com/em entidades sediadas na Suíça. Em
relação à Rússia já em 2014 haviam sido implementadas sanções, sendo apenas
reforçadas agora no âmbito dos acontecimentos de 2022.
Todas
estas sanções claro são aplicadas com atenção e cuidado e parte delas acaba por
cair ao fim da atenção mediática, a Suíça associa a sua
neutralidade também como uma marca registada do país e portanto fornecedor de uma
oferta de prestação de serviços especiais para a comunidade internacional,
sendo um ator fundamental no campo humanitário e pelos seus serviços de “bons
ofícios” como a mediação.
A
neutralidade suíça foi, é e sempre será moldada de acordo com as suas próprias
ideias e necessidades e na realidade a comunidade internacional aceitou estas ideias e necessidades suíças de direito internacional e de promoção da paz, pelo
menos tacitamente.
Continuaremos
a ver a neutralidade suíça no futuro a ser usada como um instrumento de política
externa e de como se adaptará as realidades e conjunturas futuras e de que maneira
a Suíça continuará a ser vista da maneira que é.
Carlos Cordeiro, aluno 227718, 28 de abril de 2022



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