Myanmar: Um poço de conflitos

The Painful Exodus of the Rohingyas - Cartooning for Peace

 FRANCISCO QUINTELA discorre sobre os conflitos geopolíticos internos do Myanmar.

         Com cerca de 55 milhões de habitantes, a República do Myanmar conta com uma extensão geográfica cerca de 7 vezes maior do que a extensão de Portugal. A religião mais praticada é o budismo (cerca de 87% da população), seguida do cristianismo (cerca de 6%) e do islão (cerca de 4%). A capital até 2006 era Rangoon, mas por intervenção do conselho militar, a capital birmanesa passou a ser em Nay Pyi Taw. A República do Myanmar é banhada pelo golfo da Bengala e pelo mar das Andamam. Faz fronteira a noroeste com o Bangladesh, a norte com a Índia, a nordeste com Laos, e a leste com a Tailândia

O vasto território birmanês contém variadíssimos tipos de recursos naturais que em muito aumentam o seu valor geopolítico. O país tem várias jazidas de prata, de cobre, de chumbo, de zinco, de tungsténio, de estanho, de petróleo, de gás natural, de rubis, de safiras e de esmeraldas” (Infopédia, 2021). Como acontece noutras regiões (do Médio Oriente, por exemplo), os recursos naturais são altamente atrativos do ponto de vista financeiro, o que aumenta significativamente o risco da zona, sendo que estamos a abordar um país com uma história extremamente instável. Myanmar é rico em minerais, incluindo metais precisos, petróleo, e gás natural, mas também tem um número significativo de depósitos de outras pedras preciosas e semipreciosas.

O ponto de partida foi perceber o verdadeiro risco geopolítico da região analisada, o qual pude encontrar através de um estudo elaborado pela Marsh JLT Specialty, onde se apelida a República do Myanmar um Estado “Instável”. Para se chegar a este rating a empresa especializada em estudos deste género explorou três eixos principais: a esfera política, económica e operacional. A introdução está dada: a República do Myanmar é vista como uma região extremamente instável do ponto de vista geopolítico. Resta entender porquê.

Em primeiro lugar, devido ao conflito da crise dos refugiados do povo rohingya. Os rohingyas pertencem a uma etnia minoritária que existe em Myanmar há séculos. Atualmente, mais de um milhão de pessoas de etnia rohingya vive no país, nomeadamente no estado de Rakhine, no oeste. Têm uma linguagem própria, que não é reconhecida pelo Estado. Os confrontos entre grupos rohingyas e as autoridades são uma constante. Há anos que a minoria muçulmana é perseguida, torturada e assassinada na ex-Birmânia e o conflito agravou-se nos últimos dias [2017]: em duas semanas, mais de 123 mil rohingyas fugiram do país rumo ao Bangladesh para escapar à violência.

O conflito continuará enquanto o Governo birmanês não reconhecer os rohingyas como cidadãos birmaneses. Várias organizações supranacionais já acusaram os dirigentes de Myanmar de “limpeza étnica”, com base na violência e assassínio de aldeias inteiras. Segundo o  Council of Foreign Relations dos Estados Unidos da América, o povo rohingya é discriminado pela própria nação, sendo alvo de constantes perseguições.

O segundo ator geopolítico que representa um risco geopolítico para a República do Myanmar são as forças militares internas ao próprio país. Constantemente a impedir a evolução democrática do país, os militares do Myanmar contestam constantemente as decisões do governo democraticamente eleito, colocando em causa não só a evolução de um Myanmar mais coeso e mais fortificado, mas também trespassando um péssimo aspeto de um país que aparenta semanalmente mudar os seus órgãos de soberania. Segundo a BBC News, o exército sente que tem "obrigação e direito" de governar — e nos últimos anos, à medida que o país se tornou mais aberto ao comércio internacional, não gostou do que viu. Eles [os militares] veem os estrangeiros especialmente como um perigo.

O general que comandou o golpe de estado é Min Aung Hlaing que é o comandante chefe das Forças Armadas do Myanmar. O cargo militar que ocupa dá-lhe equivalência a vice-presidente de Myanmar. O general é o principal responsável pelo massacre ao povo rohingya e foi alvo de críticas por parte de todo o ambiente internacional. Em 2017, num espaço de tempo de uma semana, houve relatos de que mais de 530,000 pessoas de etnia rohingya tenham sido deslocados do território birmanês naquilo que a Amnistia Internacional considerou uma limpeza étnica por parte das forças de segurança do Myanmar.

O objetivo dos militares birmaneses é claramente (tal como tem sido nos últimos anos) chegar ao poder. Seja de que forma for, quer seja através de um golpe de estado, de uma revolução, ou através de eleições, os militares do Myanmar não olharão aos meios para atingir um fim: o poder.

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