Justin Trudeau, o Pretor Ocidental?
Canadá - um pais que passa normalmente despercebido à
vista de todos - não por ser um pequeno país ou uma pequena economia, mas sim
porque tudo parece correr de feição no gigante Norte Americano. Acomoda
aproximadamente 40 milhões de habitantes, tem um imenso território, ocupa
lugares cimeiros no que respeita ao Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e ao
poder económico, sendo a 8ª maior economia do
mundo. Segundo o website “Fredoom House” que mede entre outros, o
índice de direitos e liberdades dos cidadãos em 210 países, o
Canada ocupa o 5º, sendo considerado um país livre.
Importa a realização do enquadramento a cima para ser
possível atingir a gravidade dos acontecimentos recentes que dividiram o pais.
O executivo Canadiano tomou algumas medidas de combate à Pandemia, algumas delas
extremamente contestadas por algumas franjas da sociedade. O que de facto
esteve na origem desta questão, foi quando o Primeiro Ministro decidiu aplicar
legalmente a obrigatoriedade de todos os camionistas serem vacinados e
inclusive impor a obrigatoriedade de apresentar o comprovativo de vacinação, essencialmente
na fronteira do Canada com os EUA. Uma decisão que indignou parte dos cidadãos
que, contrapuseram dizendo que esta medida iria agudizar
degeneração da cadeia de distribuição
de produtos e mercadorias, além de que a grande maioria da população já se
encontrava voluntariamente
vacinada ou, em processo de vacinação, pelo que se considerava
desnecessário a adoção de medidas tão invasivas no que toca à liberdade
individual. Esta indignação materializou-se em sucessivas manifestações não
violentas. Uma das manifestações mais expressiva foi a intitulada de “comboio
das liberdades”, camiões que se dirigem em direção a Ottawa, capital
Canadiana, entupindo as estradas e reivindicando o fim de todas as restrições,
afirmando que a truculência de Trudeau ao lidar com esta situação era
inconcebível, considerando as atitudes do Primeiro Ministro Canadiano pretorianas,
que apelidou inclusive, os
não vacinados de “racistas” e “extremistas”.
Após as consequências desta iniciativa popular, o
executivo Canadiano tomou diversas medidas para travar as continuas
manifestações, algumas dessas medidas como a cima referido arranham, no mínimo,
as liberdades e garantias dos cidadãos
envolvidos no seu suposto direito de manifestação, como aliás a Constituição do
Canada na secção “GUARANTEE
OF RIGHTS AND FREEDOMS” garante - A medida mais gritante foi a
aplicação da “emergency act”, uma lei que apenas foi utilizada,
ainda com outo nome “War Meausurs Act”, em situações de guerra ou conflito.
A
lei concede ao executivo poderes como - evacuação de pessoas das suas propriedades
ou estabelecimentos privados, assim como públicos, ocupação destas mesmas propriedades,
proibição de viagens de ou para zonas especificas, assim como a possibilidade de obrigar as empresas a prestar serviços mínimos essenciais,
entre outras opções dentro de um leque vastíssimo de decisões que podem
partir diretamente do executivo, sem passar pelo Parlamento. Esta lei é
bastante semelhante ao “Estado de Emergência” que o Governo Português utilizou
no âmbito das restrições do combate à Pandemia. A carta branca que o Ministro
Trudeau ofereceu a si mesmo, possibilitou congelar imediatamente as contas bancárias de alegados
participantes e motivadores das manifestações, assim como cancelar os
seguros automóveis de forma a impedir que estes possam circular em via publica e inclusive
apreender os seus veículos, assim como atribuiu mais ferramentas às forças de
segurança para que fosse possivel deter os manifestantes. Em resposta às opiniões
contrárias, relativas a esta decisão, considerada exagerada por alguns dos seus pares políticos, Trudeau alegou que
- estas medidas iriam ser altamente cirúrgicas e que eram necessárias para
proteger os cidadãos e preservar os seus empregos, visto que as manifestações
traziam um estrondoso impacto económico negativo ao pais, devido ao entupimento
de estradas que impossibilitava a circulação de mercadorias essenciais nas cadeias
de distribuição dos mais diversos setores de atividade económica.
Podemos aqui, até certa medida - fazer alguns paralelismos,
o primeiro será as manifestações nos EUA contra o racismo que surgiram após
morte do Norte Americano George Floyd que levou a um apoteótico movimento
social, intitulado de “Black Lives Matter”. Estas manifestações antirracismo
escalaram para vários confrontos violentos, entre os próprios manifestantes
assim como com as autoridades, mas
apesar desta violência comparativamente muito superior à não violência das
manifestações no Canada a cima referidas, o Presidente Norte Americano não
declarou a “Marcial
Law” que seria uma lei homologa da “emergency act” utilizada
por Trudeau. No que diz respeito aos efeitos práticos da decisão tomada
pelo executivo Canadiano, podemos encontrar também algumas simetrias com as liberdades e
garantias dos cidadãos Russos que têm sido cada vez mais violentadas, face ao
conflito com a Ucrânia, materializadas muitas vezes em detenções de
manifestantes que protestam contra a invasão, no Canada ações
semelhantes às do executivo Russo foram levadas a cabo, com a agravante que
ao contrário da Rússia, o Canada emerge e pertence a uma comunidade democrática
Ocidental.
A decisão de
Trudeau levanta precedentes e grandes preocupações – o professor e cientista
político Yascha Mounk na sua obra “people
vs. Democracy” aborda esta problemática – estaremos de facto perante uma
degeneração inelutável das Democracias Liberais?
Igor de Jesus; Lisboa 01/04/2022

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