Hungria: Um cavalo de Tróia russo no seio da União Europeia

 

Fonte: Intellinews


Anastasiya Shevchenko discorre acerca da cooperação entre a Hungria e a Rússia, nomeadamente, a sua contextualização histórica e a base jurídica e, posteriormente, relaciona-a com o futuro húngaro.

 

A relação entre os atores estatais, a Hungria e a Federação Russa demonstra uma longa história, bem como, verifica-se um avanço de forma constante após a vitória do partido “Fidesz” e do seu líder Viktor Orbán que publicamente tinha declarado o seu interesse em solidificar a relação “Hungria-Rússia”. A posição pró-russa demonstrada despertou consideravelmente um sentimento de preocupação nos seus parceiros europeus.

Até meados dos anos 2000, a relação entre os dois estados era limitada, prudente e reservada. Quanto à sua economia, Hungria, disponha de elevado FDI/GDP ratio e era subordinada no mercado da União Europeia que permitia reduzir a participação russa nos seus setores. No espaço político, representava uma corrente divisão “esquerda-direita” vigente nas sociedades da Comunidade Económica Europeia, que se refletia em partidos conservadores e céticos e partidos “pragmáticos” de esquerda. A dependência energética era um assunto sensível caraterizado pelas tentativas de aquisição hostil por parte da Rússia e das rejeições do governo com o apoio bipartidário.

A viragem gradual do estado húngaro para a Rússia tem se averiguado desde novembro de 2010 com a eleição do Orbán e da sua primeira visita ao Moscovo, posteriormente, convertendo-se em estados-membros mais controversos da União Europeia. A relação bilateral próxima dos estados mencionados no seio da crise ucraniana estimulou de forma significativa o desconforto da aliança ocidental. Entre os vários meios pelos quais o estado russo influencia a Hungria destacam-se os laços ideológicos entre ambos. Vários estudos da influência russa na política húngara concluíram que a posição pró-russa é sustentada pela elite política e empresarial.

Hoje em dia, a cooperação política entre os dois estados tem por base e é regulada, aproximadamente, por 50 tratados e acordos que contem uma estrutura jurídica, sendo o mais relevante o “Tratado sobre Relações Amigas e Cooperação” assinado em dezembro de 1991 e ratificado em fevereiro de 1995. O estado húngaro está particularmente interessado nas relações com a Rússia devido aos grupos étnicos fino-húngaros, que partilham as suas raízes culturais, linguísticas e históricas, e que são residentes no território do segundo. No início de 2019, Estados Unidos da América, pressionaram o estado húngaro com o objetivo de adotar uma posição mais rígida quanto a China e a Rússia, a reação húngara foi oposta, tendo mesmo afirmado acerca do seu interesse em manter negociações com a Rússia e, por consequência, adotar uma posição neutra. Esta resposta era expectável, já que, em 2014,Viktor Orbán declarou,

Russia is a very important partner for Hungary and our economic cooperation is strategic. Outside the European Union, Russia is Hungary's most important economic partner. We appreciate the progress made under your leadership. A year ago we agreed to step up economic interaction, and we succeeded. The progress in trade is unparalleled, and the signing of the prepared documents should be a further step on this path

Quanto à cooperação económica, que se verifica em várias áreas, a saber, o setor energético, o setor agrícola e o setor empresarial. O primeiro setor representa o maior interesse para a Rússia, já que, engloba o mercado da energia nuclear e do combustível. No domínio empresarial, ao contrário do setor energético, verifica-se que a presença húngara é mais visível na indústria farmacêutica e no setor bancário na Rússia. Além disso, a cooperação entre os dois estados é visível no setor cultural.

No campo da Política Externa, as decisões, os objetivos e as estratégias que derivam das suas necessidades, preocupações, intenções e dinâmicas internas, frequentemente não são consensuais e carecem de uma conexão entre os valores e objetivos e as políticas e ações e do apoio dos cidadãos durante a fase de formulação e, posteriormente, na execução. Como tal, a posição húngara necessita de um apoio relevante, sendo que a mesma é parcialmente contraria a opinião pública.

O estado russo que usufruí de “Sharp Power”, bem como, das táticas híbridas, durante a sua influência no território húngaro aplicou a propaganda como um instrumento de comunicação, sendo o principal objetivo dessa estratégia é modificar ou manter certos comportamentos e atitudes de grupos políticos relevantes e edificar o apoio ou informar acerca das politicas do transmissor. Apesar da dedicação na aplicação, este ato teve um impacto limitado na Hungria. Curiosamente, os partidos nacionais “Fidesz” e “Jobbik” detém um papel importante na orientação e implementação dos interesses da Federação Russa.

A proximidade das eleições húngaras em conjunto com o agravamento da crise ucraniana devido a invasão russa alteraram a “narrativa” do Orbán,

From now on, Orbán has to get used to a peaceful tone in his campaign messages. His campaign is now based on an image of a peacemaker who guarantees security of his own people through neutrality and distancing. Peace and security have become his campaign motto

Quanto à posição húngara perante este conflito, por um lado, Orbán condenou publicamente as ações russas e, também, aplicou as sanções económicas propostas pela União Europeia, bem como, foi representado apoio aos refugiados, mas

Within Hungary, though, his party is often sending a much different message. From state-owned media to pro-government outlets that are propped up with taxpayer-funded advertising, pundits linked to Fidesz are promoting conspiracy theories about the conflict and relativizing Russia’s aggression 

Um dos pontos fortes da campanha de Viktor Orbán é definitivamente “a long-term gas contract between Hungary and Russia in exchange for lower prices in comparison to its European partners”. Como resposta, a oposição húngara acentua na proximidade do seu líder com o Presidente russo, apresentando uma lista com as medidas pró-russas que foram tomadas durante a sua permanência no poder, tornando-se num dos principais argumentos apresentados pela oposição. O futuro da cooperação russo-húngara depende precisamente dos resultados políticos das eleições vindouras.

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