Hippity Hoppity, Get Off My Property: A política migratória da Austrália
ANDRÉ SANTOS
avalia a controversa política de migração australiana, argumentando sobre a
dificuldade em justificar a manutenção de restrições, as detenções de imigrantes
e o receio cultural de “Boat people”. Esta é a Austrália, uma democracia multicultural, localizada entre o Índico e o
Pacifico, com uma longa história de proteção de direitos civis e políticos, mas
com uma enorme lacuna no que toca à defesa dos direitos humanos dos migrantes.
Podemos marcar
a data de 26 de agosto de 2001 como o início de uma política agressiva e
protecionista australiana relativamente a refugiados e asylum seekers.
Nesse dia, um barco norueguês – o MV Tampa – procurou nas águas e no território
australiano, refúgio para 433 refugiados maioritariamente afegãos que haviam
fugido dos Talibã, tendo-lhe sido o acesso negado pelo governo nacional e tendo
ainda sido abordado pelos militares australianos. Este acontecimento ficou
conhecido como “Tampa Affair” e desde o
mesmo que a Austrália nunca mais foi a mesma. Poucas semanas depois desta
situação em águas australianas, acontece nos Estados Unidos da América o 11 de
setembro, que causou um enorme impacto na sociedade ocidental e que foi
rapidamente capitalizado pelo governo australiano para hostilizar os refugiados, com base na islamofobia que se evidenciou no rescaldo desse
evento.
Nessa época, era John Howard o primeiro-ministro australiano (1996–2007). O seu mandato foi considerado pouco popular, no entanto, as estritas medidas de imigração que pôs em prática, foram um marco positivo e causaram uma boa imagem perante o povo australiano. O primeiro-ministro declarou, então: “I believe it is in Australia’s national interest that we draw a line on what is increasingly becoming an uncontrollable number of illegal arrivals in this country.”.
Apesar da obtenção deste apoio popular, o tópico da política de imigração australiana causou um grande debate ético na comunidade internacional. A definição de políticas que afetam o panorama internacional e os direitos humanos dos refugiados não devem ser definidos, meramente segundo interesses políticos, esta é a opinião teórica da comunidade internacional, mas na prática os governantes acabam por se aproveitar da opinião pública – que é favorável à manutenção de políticas restritivas – para a manutenção do poder e para aumentar a popularidade do seu mandato.
A situação
agrava-se quando se compreende que a política migratória não se fica apenas pela
proibição de entrada no país de “Boat people”, mas vai mais além com hotéis
a serem utilizados como estabelecimentos prisionais para refugiados. O mais
recente acontecimento que chamou à atenção para estas restrições impostas pela
Austrália, foi o de Novak Djokovic, um dos melhores tenistas da atualidade, ao
qual foi impedida a entrada no país para a participação num evento da
modalidade e que acabou por evidenciar o Melbourne’s Park Hotel, um dos Alternative Place of Detention
(APOD).
O conselheiro
de refugiados da Amnistia da Austrália afirmou, sobre a situação: “Djokovic got
a brief glimpse of what refugees have been experiencing for years because of
the Australian Government’s shameful refugee policies.”. Além deste APOD existem outros na Papua Nova
Guiné e Nauru, por exemplo, que permitem à Austrália decidir o futuro dos
refugiados numa localização off-shore. Em setembro de 2020, o período
médio de detenção de imigrantes era de 581 dias, segundo o Comissário para os
Direitos Humanos, Edward Santow.
Apesar desta frieza
dos australianos para com os refugiados, a crise na Ucrânia pode surgir como uma
possibilidade de redenção e como um possível marco na alteração do comportamento
que se tem registado na história recente da Austrália.
A invasão da
Ucrânia pela Rússia causou na comunidade internacional um forte espírito de
compaixão e comunhão para com os refugiados originados pelo conflito e pelas
histórias emocionantes que até nós, chegam. A Austrália não foge à regra. O
governo australiano garantiu, até ao momento, cerca de 4.000
visas a ucranianos, maioritariamente com família em Austrália, no entanto, é
nas ações da população e na ligação da comunidade com esta causa que se centra
a atenção. Como referido anteriormente neste artigo, são a decisão e a opinião
do povo que mais contam no momento da tomada de decisão por parte do poder
político, daí se colocar a questão: será que foi criada uma brecha na opinião popular
para se reverter a demonização feita por governos anteriores relativamente aos
refugiados? Será esta uma oportunidade para se compreenderem as violações de Direitos
Humanos que as prisões de refugiados representam? Só o tempo nos dirá.

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