Guerra na Ucrânia e a Redefinição do Mercado Mundial de Energia

A invasão da Ucrânia levou o ocidente a tomar medidas severas contra a Rússia, sob a forma de sanções económicas. Destacaram-se a União Europeia e os Estados Unidos. Assim, a necessidade de cortar laços com Moscovo pôs a nu uma das maiores fragilidades de uma boa parcela do ocidente: a existência de forte dependência energética para com a Rússia. No presente artigo, João Santos argumenta que as sanções aplicadas à Rússia poderão ajudar, nomeadamente os Estados Membros da União Europeia, a acelerarem o seu caminho rumo a uma Europa mais verde e menos dependente dos combustíveis fósseis. 

 Um relatório recentemente divulgado pela Agência Internacional de Energia refere que, em 2021, o gás natural oriundo da Rússia correspondeu a 45% do total das importações da União Europeia (EU). No que ao Petróleo diz respeito, o total de importações dos Estados-Membros representa cerca de 60% do total das exportações russas. A União, no seu conjunto, paga, aproximadamente, 260 milhões de euros por dia a Moscovo. Num contexto de guerra, este valor torna-se ainda mais negativo: a UE, está, indiretamente, a financiar o conflito. Assim, os pacotes de sanções foram claros: é urgente parar de comprar carvão, gás natural e petróleo à Rússia . A este facto junta-se a missão assumida pelos países em reforçar a aposta em energias renováveis, em cumprimento com os objetivos estabelecidos na COP 26. Os dados estão lançados. 

Os países tentam, então, marcar posição no mercado energético. O continente africano e o Oriente Médio poderão ter um papel primordial nesta questão, principalmente depois das descobertas de poços de gás natural registadas no ano passado. É neste contexto que Marrocos prepara-se para assumir um lugar de destaque na diversificação energética da Europa. No passado mês de fevereiro, o país celebrou a assinatura de um acordo de parceria com a União Europeia, e que consiste em subsídios na ordem dos 1600 milhões de euros, através do programa Global Gateway. Ainda que o programa incida sobre diversas áreas, o tema de fundo é o da energia verde, como assumiu a presidente da Comissão Europea, Ursula von der leyen. Também a Grã-Bretanha está com os olhos postos em Marrocos. Os dois países acabaram de fechar um acordo que consiste na construção de um parque eólico de fotovoltaico, assim como de um cabo submarino, com a capacidade de abastecer sete milhões de habitações, cerca de 3800 quilómetros. O investimento associado é de 18,5 mil milhões de euros e o parque deverá criar 1350 empregos no Reino Unidos e 10.000 empregos em Marrocos. 

 De facto, como tão bem afirma o relatório do Institute for Security Studies, “Resuming and scaling up solar projects in North Africa could fully replace Russian gas as a source of European energy. In fact, Russia’s invasion of Ukraine could unlock an African energy renaissance that could leapfrog fossil fuel usage in Europe and Africa. It could also stimulate and diversify North Africa’s stagnant economies”. Quando mais a o ocidente em geral, e a União Europeia em específico, diversificarem as suas fontes de consumo assim como os seus países importadores, menos dependente estará de um único país ou bloco político. 

 Na Organização para o Tratado Norte Atlântico, a necessidade de reduzir a dependência energética russa também está a ser estudada. A organização está a equacionar a construção de um gasoduto que ligue a Argélia à Península Ibérica. Já a União Europeia aponta aos campos de gás do Chipre, Egito e Israel, que deverão passar a ser ligados por um gasoduto que una os três países à Grécia e a Itália. Também Portugal tenta aproveitar a possibilidade de assumir um lugar de destaque no panorama energético europeu, neste caso, no seu transporte. Depois da suspensão da certificação do Nord Stream 2 por parte da Alemanha, que liga a Rússia à Alemanha e possui capacidade para abastecer 26 milhões de casas, António Costa Silva, recém-empossado Ministro da Economia, propôs a António Costa a construção de um gasoduto que ligue Sines ao Norte da Europa (atravessando Espanha e França). O projeto prevê que Portugal passe a garantir o transhipping de gás natural liquefeito para a Europa, assim como a criação de carreiras noturnas de comboios para o transporte do mesmo. O Primeiro-Ministro já a aprovou e a mesma encontra-se em andamento. 

 A presente guerra na Europa e a necessidade de “castigar” o causador do conflito expôs a fragilidade energética do ocidente: a grande maioria dos países encontrava-se, demasiado dependente de energias fósseis e da Rússia. A aplicação de sanções está a propiciar uma grande transformação do mercado de energia à escala global, através do aparecimento de uma série de potenciais novos players, como Marrocos. É fundamental não desperdiçar a oportunidade que o conflito proporcionou e reforçar o consumo de energias renováveis, garantindo, simultaneamente, a menor dependência possível de um único Estado.

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