Guerra Fria num clima quente: Xi, Putin e Biden por estranhas marés
Uma região aparentemente calma e não-prioritária para os interesses estratégicos das grandes potências tem vindo a mostrar-se exactamente o oposto. A larga maioria dos actores neste cenário são pequenos, salvo excepções como o México e a Venezuela, e, devido à sua dimensão, optam por equilibrar relações com Washington e Moscovo.
A Perspectiva Ocidental
Devido à proximidade geográfica, os EUA nunca desviaram o olhar destes arquipélagos da América Central e, em 1983, em plena Guerra Fria, criaram a Iniciativa da Bacia das Caraíbas (CBI), que, desde logo, constituiu a pedra angular da cooperação económica entre os EUA e as Caraíbas.
Esta iniciativa abrange dois programas: o CBERA - Lei de Recuperação Económica da Bacia das Caraíbas - e o CBTPA - Lei de Parceria Comercial EUA-Caraíbas. A ideia deste tipo de iniciativas consiste em fornecer assistência económica à região, com o intuito de tornar os Estados das Caraíbas em Estados Satélite. Traduz-se num tipo de soft power pronto para impedir qualquer influência oriental, principalmente por causa de Cuba. O programa CBERA não tem limite de prazo de actuação e o CBTPA foi autorizado até 2030, pelo Congresso dos EUA.
Em 2016, foi aprovada a Lei de Compromisso Estratégico EUA-Caraíbas, que visa expandir as relações governamentais para o sector privado e ainda para a sociedade civil da região. Washington afirma que a região das Caraíbas precisa de ser mais ajudada e, segundo a perspectiva americana, os pontos fulcrais ainda têm de ser respondidos. Por outras palavras, os EUA necessitam de aumentar a sua influência.
Os EUA continuam a ser o parceiro comercial número 1 das Caraíbas no que à cooperação de segurança diz respeito. Possuem 7 bases militares espalhadas por toda a região, que pertencem ao SOUTHCOM - Comando do Sul dos EUA, e que constituem por isso um elemento essencial na estratégia americana na América Central.
Em Cuba, uma das bases está estabelecida em Guantánamo, o que representa por si só uma ocupação ilegal do território desde 1959; nas Honduras, existe a base de Palmerola/Soto Cano, onde estão cerca de 500 militares americanos; em El Salvador, aviões da Marinha dos EUA e da DEA utilizam o Aeroporto Internacional de Comalapa, no âmbito de um acordo entre o governo americano e o governo salvadorenho; as ilhas de Curaçao e Aruba, territórios holandeses, estabeleceram um acordo com os EUA para cooperação militar; em Antígua, existe, desde a Segunda Guerra Mundial, uma base norte-americana alugada ao governo local; nas Bahamas, há um centro de teste de novas armas na ilha de Andros, associado à Marinha dos EUA, mas também conta com a presença de outros membros da NATO; no Panamá, os militares norte-americanos utilizam o porto de Vasco Nunez de Balboa para reabastecer, carregar e descarregar os seus navios. Este documento aborda todos os aspectos do acordo estratégico entre EUA e as Caraíbas.
Ainda sobre o Panamá, desde 2003 que as forças armadas americanas realizam exercícios militares no PANAMAX, sob o pretexto de garantir a segurança da operação do canal.
A estratégia SOUTHCOM para 2017-2027 afirma que os possíveis desafios futuros possam incluir redes de ameaças transregionais e transnacionais, como a interferência de organizações extremistas como o ISIS e o Hezbollah. Este documento refere ainda que a região das Caraíbas é extremamente vulnerável a desastres naturais e surtos de doenças infecciosas, devido a problemas de desigualdade social.
O presente relatório concluiu que a presença da China, Rússia e Irão nas Caraíbas desafiam todas as nações que valorizam a não agressão, o estado de direito e os direitos humanos. Relembro a relação que os EUA têm com os direitos humanos, na Baía de Guantánamo, em Cuba.
A Perspectiva Oriental
Entre 2002 e 2019, o volume comercial das Caraíbas com a China aumentou 8 vezes, o que fez com que o país liderado por Xi Jinping passasse a ser o segundo maior parceiro comercial da América Latina e das Caraíbas, apenas atrás dos EUA.
4 dos 15 países que reconhecem Taiwan estão nas Caraíbas. Todavia, esses países possuem um volume de comércio significativamente maior com a China, dado que Taiwan apenas consegue ter alguma presença na região devido ao investimento e ajuda externa dos seus aliados. A CARICOM - Bloco de Cooperação Económica e Política das Caraíbas - não possui, até então, um acordo de acesso preferencial com a China.
Em 2010, a Rússia e a CARICOM assinaram um acordo de cooperação. Neste sentido, em 2013, o governo de Moscovo anulou uma dívida de 277 mil dólares com a Guiana e, em 2015, assinou um acordo sobre a reestruturação da dívida de Granada.
De salientar que durante a questão da Crimeia, em 2014, a maioria dos países das Caraíbas assumiu uma posição neutra, apenas alguns países tradicionalmente pró-americanos, como os Barbados, Bahamas, Haiti e Trinidad e Tobago, votaram contra a Federação Russa. Hoje, os cidadãos russos estão isentos de apresentar vistos em todos os países das Caraíbas.
Em 2019, o Ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergey Lavrov, durante uma viagem ao Suriname, constatou que existia um interesse mútuo entre os países da CARICOM e a Rússia para aumentar a cooperação e o diálogo político. Também o embaixador russo na Guiana, mas que representa a Rússia simultaneamente nos Barbados, em Granada, em Trinidad e Tobago e em São Vicente e Granadinas, Nikolay Smirnov, declarou que os países das Caraíbas apoiam o conceito de multipolaridade, o estado de direito internacional e o princípio da não interferência nos assuntos internos de outros Estados.
Veremos qual será o verdadeiro potencial geopolítico desta região muitas vezes subvalorizada ou se conseguirá permanecer intacta após os assédios imperialistas.


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