Europa da Paz e da Defesa - reação dos estados-membros face à Guerra Russo-Ucraniana



Na presente análise, Gonçalo Costa argumenta que a ofensiva relâmpago da Rússia conduziu a um clima de corrida ao armamento ou paz armada. Os Estados-Membros da UE vêm os seus orçamentos a serem reforçados no campo da defesa. A NATO com o inicio desta era belicista ocupa um papel de destaque no campo de geopolítica face a ameaça russa, levando ao pedido de adesão da Suécia e da Finlândia à NATO. 


No dia 24 de fevereiro de 2022, a Europa muda o seu rumo. A ofensiva militar da Rússia sob o território ucraniano deixa a União Europeia num dilema - prosseguir novamente um papel moderado e de apelo ao diálogo no conflito russo-ucraniano, ou ceder desta posição para assumir um reforço da sua capacidade defensiva face ao aparente jingoísmo vizinho russo. Hoje sabemos a resposta e, com isso, podemos ter presenciado um dos últimos dias da era Pax Europaea.

 

Especialistas e comentadores apontam a guerra na Ucrânia como um evento-gatilho que poderá potenciar a União Europeia como um futuro ator militar e não meramente um ator diplomático. Entre os seus Estados-membros, o seu principal ator político e económico, a Alemanha já anunciou um aumento exponencial dos gastos na defesanacional e comprometeu-se a enviar armamento para a Ucrânia, algo queanteriormente seria considerado por muitos inconcebível e hoje visto como umadas maiores mudanças da política externa alemã desde o fim da Segunda GuerraMundial.

 

A França, liderada pelo agora reeleito centrista Emmanuel Macron, assume aresponsabilidade de apoiar o Estado ucraniano em todas as vias possíveis, estipulando a entrada na guerra como a sua única linha vermelha. Mas é no Leste Europeu pós-Soviético e atlanticista que se observa os principais atores políticos do lado da Ucrânia: os Estados Bálticos (Estónia, Lituânia, Letónia), Polónia e a República Checa. Desde a fase mais inicial da guerra, estes Estados prontamente assumiram uma posição de grande solidariedade com a Ucrânia, ligados por um elo histórico recente de inimizade com a potência Russa, e doaram dezenas de milhares do seu armamento, desde artilharia até armamento pesado anti tanques. Destacando o protagonizado caso polaco, Kyiv informa que o governo de Morawiecki já providenciou em armamento cerca de 1.6 mil milhões de dolares americanos. E a isto alia-se o papel fulcral polaco como centro logístico para suprimentos de armas para a Ucrânia. 

 

No outro lado da Europa, na costa ocidental Ibérica, Portugal antecipa que o seu investimento defensivo poderá atingir cerca de 1,89% do Produto Interno Bruto (PIB) no ano de 2024, com o apoio condicionado dos fundos europeus. Também em Fevereiro, o governo do primeiro-ministro António Costa reiterou o seu apoio às forças armadas ucranianas com um contributo entre 8 e 10 milhões de euros, inseridos dentro dos 500 milhões aplicados num novo pacote de auxílio militar à causa ucraniana.

 

A invasão do Kremlin reintroduziu a guerra na Europa, até recentemente impensável e relativizada como um cenário demasiado sério e perigoso. Sublimando-se o perigo russo, este choque bélico suscitou uma enorme resposta comum da União Europeia - potenciando uma nova transformação da sua política comum de defesa e segurança que finalmente programe a autonomia militar estratégica há muito tempo desejada.

 

Na Europa vivesse um "clima de paz armada ", o bloco Ocidental ou europeu preparasse para um possível confronto com o bloco de Putin que nitidamente tem um projecto megalómano de cariz imperialista, nomeadamente “Construir umaEurásia de Lisboa a Vladivostok”. Esta visão imperialista e expansionista levou os Estados-Membros da EU a valorizarem o papel da NATO enquanto aliança defensiva capaz de assegurar o princípio de autoderminação.

 

Um exemplo da conexão da NATO com a EU é a recente decisão da Finlândia e da Suécia em aderira NATO. A invasão russa colocou em causa necessidade de os Estados Europeus terem de enfrentar uma III Guerra Mundial. Esta cisão de cooperação internacional tanto no campo económico, como militar visa combater o neorrealismo aplicado pela Rússia.  Dito isto, basta aguardar par vermos como será o regresso de uma sociedade europeia militariza com um sentimento de guerra e como esta visão vai alertar os regimes demoliberais e as suas sociedades.

 

 

 


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