Energia como fonte de poder nacional: transição energética e transição de poder
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É impensável negar o valor do setor
energético como instrumento de poder, estando este internamente ligado aos
polos de decisão política nacional e internacional. Neste sentido, o tópico da
transição energética encontra-se na mesa há várias décadas. Contudo, independentemente
de reconhecermos os efeitos climáticos da ação humana no nosso planeta, continuámos
a crescer num mundo movido a petróleo e em volta de uma geopolítica de fontes
energéticas não renováveis e poluentes. Apenas nos tempos mais recentes se tem
vindo a tomar maior atenção às urgências climáticas, encontrando-se agora as grandes
potências políticas sob pressão para a implementação de medidas mais drásticas
devido à escassez de tempo. Deste modo, a “geopolítica do petróleo” está num
caminho de decadência, sendo prevista a sua deterioração perante a revolução
subjacente à necessidade de uma resposta verde e eficiente que consiga concretizar
os objetivos ambientais críticos, como a neutralidade carbónica em 2050.
Mas com uma transição energética surge inquestionavelmente
uma transição de poder, e a recomposição da geopolítica no setor energético já
se está a tornar numa realidade. A criação de novos e distintos espaços de
geopolítica energética baseados num sistema de transformação do Espaço Energético
Global têm-se vindo a mostrar visíveis, continuando a ser exibida a disputa pela
produção, desenvolvimento e controlo de matérias-primas para alcançar o domínio
desse mesmo espaço. Por esse motivo, é fundamental analisarmos este importante
espaço de ação, tendo em conta as contribuições multifacetadas que existem como
resposta, e entendendo quem ganha e quem perde neste jogo de política energética.
Em termos de vencedores e perdedores neste
âmbito, a resposta é bastante complexa, uma vez que a dependência nos grandes
líderes energéticos atuais, países produtores de combustíveis fósseis como a
Rússia e a Arábia Saudita, deverá aumentar antes da sua depressão. Assim,
devemos analisar primeiro os petroestados que se poderão mostrar persistentes nesta
transição, visto que, mesmo que alcancemos esta nova era de “net-zero
emissions”, dificilmente significará o fim da utilização de combustíveis
fósseis, estando prevista apenas uma grande diminuição da sua utilização atual,
passando a utilização de gás natural para metade e de petróleo para 25%.
Esta transição energética acabará por levar
a um aumento da influência de alguns exportadores de petróleo e gás,
concentrando a produção global em poucos atores. Eventualmente, a procura de
petróleo diminuirá significativamente, mas permanecerá substancial nas próximas
décadas. Muitos produtores de alto custo, como o Canadá e a Rússia, poderiam acabar
fora do mercado devido à diminuição da procura e, presumivelmente, do preço do
petróleo. Outros países produtores de petróleo aspiram liderar esta transição
verde, como a Noruega, Reino Unido e Estados Unidos, poderão acelerar a
transição para longe dos combustíveis fósseis. Por outro lado, temos os Estados
do Golfo, que têm petróleo muito barato e com baixa quantidade de carbono e,
por isso, podem ver suas ações de mercado aumentarem, levando a aumentar a sua
influência geopolítica, pelo menos até que o uso de petróleo decline mais
acentuadamente.
Em contrapartida, devemos analisar também quem
são os atores que se poderão mostrar como superpotências de energia verde e
que, consequentemente, contrairão nova influência geopolítica. Existem diversos
fatores que poderão levar os atores políticos a alcançar esse mesmo nível:
Em primeiro lugar, o poder de determinar os
padrões da energia verde, sendo que um ator que estabelece padrões globais em
termos de equipamentos ou normas mantém uma vantagem competitiva sobre outros. Temos
o exemplo da Austrália, Chile, Japão e Arábia Saudita que emergiram como atores
principais no comércio de hidrogénio e amoníaco de baixo carbono e, portanto, são
capazes de estabelecer padrões de infraestrutura e normas de certificação para
essas fontes de combustível, dando às suas tecnologias e equipamentos uma posição
vantajosa.
Em segundo lugar, temos o controlo do
comércio de minerais (cobalto, cobre, lítio, níquel, terras raras) essenciais
para a tecnologia de energia verde como as turbinas eólicas e os veículos elétricos.
Está previsto um aumento no seu comércio global de 10% para 50% até 2050, disfrutando
o pequeno número de países fornecedores destes minerais de uma crescente
influência. Hoje, mais da metade do fornecimento global de cobalto vem por
parte da República Democrática do Congo, metade do fornecimento de lítio pela Austrália
e mais de metade do fornecimento de terras raras pela China.
Outro elemento de domínio será a habilidade
de fabrico de componentes baratos para estas mesmas tecnologias. Neste âmbito, a China está novamente em
destaque, sendo esta responsável pelo fornecimento de dois terços do polisilício
mundial e 90% dos "wafers" de semicondutores utilizados nos painéis
solares.
Com tudo isto, podemos chegar à conclusão
de esta revolução energética irá exigir um elevado nível de cooperação entre os
atores internacionais, mas também levará a conflitos, produzindo vencedores e
perdedores neste novo panorama. Porém, esta transição mostra-se irreversível,
estando vários atores a apostar cada vez mais nela e a alterar a sua política
externa para este novo caminho, como é o exemplo da União Europeia. Como vimos,
a China encontra-se numa posição vantajosa, estando propensa a beneficiar desta
transição, e os EUA mesmo estando mais atrás, encontram-se no mesmo caminho.
Contudo, outras potências como a Rússia parecem mais predispostas a retroceder
na sua posição de superpotência energética. Uma coisa é certa, a política
externa das diferentes potências políticas está em crescente alteração, uma vez
que energia é poder.

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