Energia como fonte de poder nacional: transição energética e transição de poder


Paula Iordache apresenta o panorama da transição energética atual, analisando os principais pontos influentes e a sua implicação quanto à transição de poder político na arena internacional.

É impensável negar o valor do setor energético como instrumento de poder, estando este internamente ligado aos polos de decisão política nacional e internacional. Neste sentido, o tópico da transição energética encontra-se na mesa há várias décadas. Contudo, independentemente de reconhecermos os efeitos climáticos da ação humana no nosso planeta, continuámos a crescer num mundo movido a petróleo e em volta de uma geopolítica de fontes energéticas não renováveis e poluentes. Apenas nos tempos mais recentes se tem vindo a tomar maior atenção às urgências climáticas, encontrando-se agora as grandes potências políticas sob pressão para a implementação de medidas mais drásticas devido à escassez de tempo. Deste modo, a “geopolítica do petróleo” está num caminho de decadência, sendo prevista a sua deterioração perante a revolução subjacente à necessidade de uma resposta verde e eficiente que consiga concretizar os objetivos ambientais críticos, como a neutralidade carbónica em 2050.

Mas com uma transição energética surge inquestionavelmente uma transição de poder, e a recomposição da geopolítica no setor energético já se está a tornar numa realidade. A criação de novos e distintos espaços de geopolítica energética baseados num sistema de transformação do Espaço Energético Global têm-se vindo a mostrar visíveis, continuando a ser exibida a disputa pela produção, desenvolvimento e controlo de matérias-primas para alcançar o domínio desse mesmo espaço. Por esse motivo, é fundamental analisarmos este importante espaço de ação, tendo em conta as contribuições multifacetadas que existem como resposta, e entendendo quem ganha e quem perde neste jogo de política energética.

Em termos de vencedores e perdedores neste âmbito, a resposta é bastante complexa, uma vez que a dependência nos grandes líderes energéticos atuais, países produtores de combustíveis fósseis como a Rússia e a Arábia Saudita, deverá aumentar antes da sua depressão. Assim, devemos analisar primeiro os petroestados que se poderão mostrar persistentes nesta transição, visto que, mesmo que alcancemos esta nova era de “net-zero emissions”, dificilmente significará o fim da utilização de combustíveis fósseis, estando prevista apenas uma grande diminuição da sua utilização atual, passando a utilização de gás natural para metade e de petróleo para 25%.

Esta transição energética acabará por levar a um aumento da influência de alguns exportadores de petróleo e gás, concentrando a produção global em poucos atores. Eventualmente, a procura de petróleo diminuirá significativamente, mas permanecerá substancial nas próximas décadas. Muitos produtores de alto custo, como o Canadá e a Rússia, poderiam acabar fora do mercado devido à diminuição da procura e, presumivelmente, do preço do petróleo. Outros países produtores de petróleo aspiram liderar esta transição verde, como a Noruega, Reino Unido e Estados Unidos, poderão acelerar a transição para longe dos combustíveis fósseis. Por outro lado, temos os Estados do Golfo, que têm petróleo muito barato e com baixa quantidade de carbono e, por isso, podem ver suas ações de mercado aumentarem, levando a aumentar a sua influência geopolítica, pelo menos até que o uso de petróleo decline mais acentuadamente.

Em contrapartida, devemos analisar também quem são os atores que se poderão mostrar como superpotências de energia verde e que, consequentemente, contrairão nova influência geopolítica. Existem diversos fatores que poderão levar os atores políticos a alcançar esse mesmo nível:

Em primeiro lugar, o poder de determinar os padrões da energia verde, sendo que um ator que estabelece padrões globais em termos de equipamentos ou normas mantém uma vantagem competitiva sobre outros. Temos o exemplo da Austrália, Chile, Japão e Arábia Saudita que emergiram como atores principais no comércio de hidrogénio e amoníaco de baixo carbono e, portanto, são capazes de estabelecer padrões de infraestrutura e normas de certificação para essas fontes de combustível, dando às suas tecnologias e equipamentos uma posição vantajosa.

Em segundo lugar, temos o controlo do comércio de minerais (cobalto, cobre, lítio, níquel, terras raras) essenciais para a tecnologia de energia verde como as turbinas eólicas e os veículos elétricos. Está previsto um aumento no seu comércio global de 10% para 50% até 2050, disfrutando o pequeno número de países fornecedores destes minerais de uma crescente influência. Hoje, mais da metade do fornecimento global de cobalto vem por parte da República Democrática do Congo, metade do fornecimento de lítio pela Austrália e mais de metade do fornecimento de terras raras pela China.

Outro elemento de domínio será a habilidade de fabrico de componentes baratos para estas mesmas tecnologias.  Neste âmbito, a China está novamente em destaque, sendo esta responsável pelo fornecimento de dois terços do polisilício mundial e 90% dos "wafers" de semicondutores utilizados nos painéis solares.

Com tudo isto, podemos chegar à conclusão de esta revolução energética irá exigir um elevado nível de cooperação entre os atores internacionais, mas também levará a conflitos, produzindo vencedores e perdedores neste novo panorama. Porém, esta transição mostra-se irreversível, estando vários atores a apostar cada vez mais nela e a alterar a sua política externa para este novo caminho, como é o exemplo da União Europeia. Como vimos, a China encontra-se numa posição vantajosa, estando propensa a beneficiar desta transição, e os EUA mesmo estando mais atrás, encontram-se no mesmo caminho. Contudo, outras potências como a Rússia parecem mais predispostas a retroceder na sua posição de superpotência energética. Uma coisa é certa, a política externa das diferentes potências políticas está em crescente alteração, uma vez que energia é poder.

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