Embaixadores Felpudos - O que é a “Panda Diplomacy”?

 

Fonte da Imagem https://timesofindia.indiatimes.com/world/china/chinas-panda-diplomacy-all-you-need-to-know/articleshow/59522759.cms

ALICE SANTOS evidencia este modo peculiar chinês de praticar política externa através da utilização da imagem e do empréstimo de pandas gigantes que já é utilizado desde o século VII. 

 O Ailuropoda melanoleuca, mais conhecido por “panda-gigante”, é um conhecido mamífero preto e branco que se alimenta de bambu e cujo habitat se encontra nas montanhas da China central nas províncias de  Sichuan, Shaanxi e Gansu. Para além de ter um papel principal na polinização e transporte de sementes por um vasto território, a importância desta espécie vulnerável transcende o seu ecossistema. Para a China, o panda-gigante é um símbolo inalienável da sua história e cultura e uma ferramenta a ser utilizada na criação de amizades diplomáticas.

 O amor chinês a este animal é evidente quando consideramos as exigentes campanhas de proteção e recuperação da espécie que o Estado tem promovido, desde os anos 70, através da criação do Parque Nacional do Panda Gigante (que contém 77 áreas protegidas) e de programas de reprodução assistida. Este esforço resultou numa reclassificação do panda-gigante por parte da International Union for Conservation of Nature de “em risco” para “vulnerável” em 2016.

 A história da “Panda Diplomacy começa no século VII, quando a Imperatriz Wu Zetian presenteou o Imperador japonês Tenmu com dois pandas com o objectivo de criar uma boa relação com o país arquipélago. Mas esta forma curiosa de soft-power conheceu o seu auge nos anos 70, após a visita histórica do Presidente americano Richard Nixon à China em 1972. A reaproximação diplomática bem sucedida resultou numa troca de animais entre países. Ao zoo de Washington, chegaram o casal de pandas composto pelo macho, Hsing Hsing, e pela fêmea, Ling-Ling. E à China, dois bois-almiscarados. Dois anos depois, seria a vez do Jardim Zoológico de Londres receber outro casal, Ching Ching e Chia Chia, após o pedido pessoal do primeiro-ministro britânico Edward Heath a Mao Zedong. Situação semelhante aconteceu com a Coreia do Norte, Alemanha e até mesmo Portugal.

 No entanto, a partir da década de 80, devido ao perigo de extinção da espécie, a política de doação de pandas foi alterada e transformada numa política de “empréstimo”. Por cada panda emprestado, atualmente, o país receptor paga um milhão de dólares por ano, dinheiro que é canalizado para programas de conservação.  Todos os pandas emprestados e quaisquer crias nascidas no estrangeiro são propriedade da China e são retirados aos países e devolvidos à China assim que os contratos terminam. As únicas exceções a este acordo são os pandas do zoo de Taiwan (cujo contrato não prevê o regresso dos animais à China) e os do zoo do México (cujas crias do casal que foi doado nasceram antes da política de empréstimo ser posta em prática). Até 2019, apenas 20 países tinham pandas gigantes emprestados.

 O que é mais curioso na “Panda Diplomacy” é de como esta é ilustrativa da história chinesa e do sentimento e/ou posicionamento do governo chinês em relação a algum assunto político. Até à chegada de Deng Xiaoping ao poder, a doação de pandas era feita a fim de criar laços com países cujas relações com a URSS se encontravam comprometidas, a fim de fazerem nascer cooperações que pudessem dar à China um apoio contra os russos. A partir de 1982, a política de empréstimo teria motivos mais práticos para além do típico soft-power. Por exemplo, em 2011, a Escócia recebeu dois pandas em troca da celebração de contratos sobre salmão, energias renováveis e veículos Land Rover. O empréstimo de pandas tornou-se assim, uma espécie de presente aos países que cooperam com a China, sendo retirados aos países receptores quando isso não acontece como forma de castigo. Isto é ilustrado pelo facto de que os maiores parceiros comerciais da China também são aqueles a que a China empresta mais pandas. Por outro lado, incidentes diplomáticos resultam frequentemente em ameaças por parte da China para a devolução imediata dos animais, como é o caso dos pandas de Viena que iam sendo repatriados após uma visita do Dalai Lama ao país em 2013.

 A verdade é que a China não é vista como “confiável” no Ocidente mas os seus pandas são imensamente populares tendo os zoo que os albergam fora da China duplicado as suas visitas após o empréstimo. A fofura do animal tal como a sua fama fazem esquecer a imagem da China como uma força imperialista e um país totalitário. Por isso, tiro o chapéu a Xi Jiping por continuar a utilizar esta forma tão eficaz de soft-power, que não só renova a aparência do seu regime, mas também ajuda na recuperação deste animal e de tantos outros que dele dependem para a manutenção dos seus ecossistemas. No fim do dia, o empréstimo de pandas resulta numa situação em que a China fica sempre a ganhar.

 Como conclusão, apresento uma frase de Vladimir Putin de 2019 que resume na totalidade o que realmente significa a “Panda Diplomacy”:

"Quando falamos de pandas, acabamos sempre com um sorriso no rosto."


Alice Santos || Nº227731 || 28 de Abril de 2022

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