E quando a política externa e os Tratados, em vez de serem um veículo de Paz se transformam num veículo de conflito

 

Caricatura política 1866 (criada por Honoré Daumier)

Para que um veículo tome o seu rumo sem percalços, tem de ser bem conduzido. O condutor tem que ter a astúcia de o saber conduzir de forma a evitar incidentes e conflitos de percurso.

A política externa, por sua vez, se for bem conduzida e com astúcia por quem a conduz evita os incidentes e conflitos, ou seja, pelos atores que nela atuam, os estados através dos seus líderes políticos e os diplomatas através da diplomacia. Com uma boa condução tinha-se evitado ou mitigado os incidentes e conflitos entre estados que existiram ao longo dos seculos desde a monarquia à república e desde as ditaduras às democracias e aos que assistimos nos dias de hoje.

Os conflitos armados acontecem por diversas razões: o egoísmo da conquista do poder supremo; a ganância de obter mais território; os interesses económicos e políticos; religiosos e étnicos sempre com o mesmo fundamento, a subjugação de um estado aos interesses de outro estado ou de um ser-humano a outro.

Os lideres políticos não aprenderam nada com a história e com os conflitos do passado, a sede de poder de subjugação e denominação e a ganância aclamam mais além-fronteiras na mente dos líderes mundiais nas relações internacionais de política externa. Na Teoria Clássica dos Realistas um dos grandes pilares baseava-se na noção do Equilíbrio do Poder e em dois conceitos chave, o poder e o conflito, identificando a natureza humana como predadores, movidos pela ganância do desejo da denominação e subjugação na conquista de territórios e nos bens naturais dos seus vizinhos, demonstrando o seu egoísmo. 

A Europa sempre foi palco de conflitos pelo poder e pelo equilíbrio do poder. Tucídides (460 a.C.- 400 a.C.), o historiador grego escreveu a história da Guerra Peloponeso (431 a.C.- 400 a.C.), um conflito armado entre Esparta (Regime Autoritário) e Antenas (Regime Democrático) no qual ele foi participante, este conflito acontece devido a Esparta se aperceber do forte poder militar que  crescia em Antenas com a Liga de Delos, mas antes deste conflito já tinham havido outros como as Guerras Médicas, Guerras Greco-Persas, Guerras Persas ou Guerras Medas que utilizavam o equilíbrio do poder como argumento mas na verdade o interesse era a denominação do território e o poder absoluto das duas polis.

A Idade Média (476-1453), desde o seculo V ao seculo XV é um dos grandes exemplos de sede de poder e conquista, movida por interesses, na tentativa do domínio da Europa por duas Dinastias, sendo a Guerra dos 100 anos (1337-1453), cento e dezasseis anos de conflitos pelo domínio da europa. Os Srs. Feudais, na conquista de território e mais poder e a Igreja Católica queria ser a religião dominante, razão essa dos conflitos com os muçulmanos e protestantes.

A Idade Moderna (1453-1789), traz uma mudança de mentalidades, mas a ganancia e sede de poder continua a gerar conflitos, com ela também surge o Tratado  da Paz de Augsburg (1530) para acabar com os conflitos entre católicos e protestantes, mas o tratado não resolveu o conflito vindo a marcar o seculo XVII com o desencadear da Guerra dos 30 anos (1618-1648), movida pela rivalidade religiosa entre católicos e protestantes e mais um  confronto entre dinastias pelo poder absoluto do território europeu.

A Revolução Francesa (1789-1799) foi precursora do fim das monarquias absolutas na Europa retirando os privilégios aos Srs. Feudais, aos Aristocratas e à Igreja Católica. As guerras napoleónicas tinham como objetivo tornar a França num grande império com a conquista de novos territórios, os conflitos continuavam entre dinastias e estados pelo domínio da europa, mudavam os tempos e a mentalidade, mas não as virtudes.

 A Guerra Franco-Prussiana (1870-1871) marcou o seculo XIX, um conflito entre o império francês que marcou o fim da monarquia francesa, sendo substituída pela Terceira República e o reino da Prússia que uniu a Alemanha. O Tratado de Frankfurt (1871) com a subjugação da França à Alemanha deu origem ao Revanchismo Francês que teve impacto no despoletar da I Guerra Mundial (1914-1918). A Alemanha perde a guerra sendo subjugada e dominada pela Tríplice Entente, França, Rússia e o Reino Unido no Tratado de Versailles (1919), mais um tratado mal conduzido que deu origem a mais um conflito armado, a II Guerra Mundial (1939-1945),  vindo demonstrar como os tratados podem ser geradores de conflitos em vez de apaziguadores.    

A Organização das Nações Unidas (ONU) nasce no final da II GM em 1945, uma organização que tinha como objetivo a união das nações e o fim dos conflitos entre estados, mas a condução das suas políticas,  os embargos a estados e a falta astucia na condução dos conflitos, em vez de apaziguar e gerir os conflitos tem feito o inverso, gerado conflitos.

O atual conflito Ucrânia-Rússia e todos os anteriores, têm a ver com uma condução que levou a política externa e os tratados a uma vereda pelos atores políticos ao longo de seculos como exemplificou Carlos Tavares aluno de Ciência Política do ISCPS de Lisboa nesta sintetizada análise em que muito mais havia para descrever.

Se as atitudes e decisões dos atores políticos continuarem a ser conduzidas da forma que estão, a III GM está iminente e uma nova entente entre a Rússia, China, Irão e Coreia do Norte, pois esses estados sabem que se a Rússia ceder, eles serão os próximos alvos dos interesses do expansionismo “liberal”.

“quando os condutores (Atores Políticos) não têm a astúcia nas suas decisões e atitudes, o rumo torna-se numa vereda com muitos percalços e conflitos”. (enfase minha)


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