De adversários a "power couple": a cooperação energética Germânico-Israelita
De adversários a power couple: a cooperação energética Germânico-Israelita
ANDRÉ SANTOS discorre sobre a
cooperação bilateral entre a Alemanha e o estado de Israel. Israel tem-se
posicionado, nos últimos anos, como um dos principais exportadores de energia
do Médio Oriente e, com o conflito na Ucrânia, pode agora tornar-se a solução
para pôr fim ao monopólio energético da Rússia na Europa e os sinais começam a
surgir após a recente assinatura de um acordo de cooperação com a Alemanha, mas poderá haver algo mais por detrás deste pacto? Para
completar esta trilogia de artigos, irei, então, analisar um cenário de
cooperação, uma vez que ao longo das restantes análises realizadas abordei
cenários de tensão e conflito.
Segundo
o próprio ministério da energia, o desenvolvimento de Israel neste setor
deveu-se à descoberta de fontes de gás natural nas águas de exploração
económica israelitas. Estas fontes permitiram que um estado quase totalmente
dependente de importações energéticas passasse a ser independente a esse nível
e ainda possuísse reservas suficientes para lucrar com as exportações deste bem,
sendo já exportador para a Jordânia e o Egito e tendo um enorme potencial para
se tornar um exportador para o “velho continente”.
Os planos para que tal se
tornasse uma realidade surgiram em 2013 com o início do planeamento do EastMed
Pipeline que, até hoje, pretende ligar Israel, Grécia, Chipre e o resto
da Europa até 2025. No cenário atual que se vive na Europa, com a tensão entre a
Rússia e a Ucrânia, poderá surgir agora uma nova hipótese de se revisitar o
projeto do pipeline.
Este posicionamento do estado de
Israel no cenário internacional no setor da energia pode ficar mais reforçado
com a recente assinatura de um acordo bilateral com a Alemanha. Segundo
o Ministério da Economia alemão, este tratado pretende “promover o desenvolvimento
de tecnologias que forneçam energia fiável, sustentável e acessível”.
Mais especificamente, os dois
estados irão cooperar nas áreas de inovação tecnológica, energias renováveis,
gás natural e hidrogénio, o que permitirá uma maior expansão israelita, como
refere o ministro da energia de Israel este acordo será «“of
great use” to Israeli companies and research centres», mas também irá
representar um enorme avanço nos interesses europeus de desvinculação do
poderio russo.
De forma a abrir a possibilidade
de dirigir novas sanções à Rússia como resposta à invasão a território
ucraniano, a Alemanha tem, recentemente, procurado através do seu ministro Robert
Habeck, encontrar possíveis apoios para se libertar da dependência russa em
que recai atualmente, assinando inclusive um pacto com o Qatar relativo ao gás
natural liquefeito para esse fim. Mas será apenas este o interesse alemão
relativo à energia?
Relativamente ao estado de
Israel, as relações entre a Alemanha e aquele primeiro não são novas e o seu
início data oficialmente de 1965. Os fantasmas do nazismo e do antissemitismo mantêm-se
bastante presentes na cooperação entre estes dois estados. Sinal disso são as
constantes visitas da ex-chanceler alemã Angela Merkel que, durante o seu
mandato, foi ao estado de Israel por sete
ocasiões.
A questão que aqui se coloca é,
será que este acordo energético não poderá ser um bico de dois gumes com um
objetivo de apoio indireto por parte dos alemães aos interesses israelitas e,
assim, às guerras que o mesmo continua a travar no Médio Oriente? Caso seja
esta a realidade, ambos os estados sairiam beneficiados e não poderá ser
“apontado o dedo” à Alemanha por apoiar a sobreposição do estado de Israel à Autoridade
Palestiniana.
De facto, o apoio de um novo supplier
energético irá beneficiar os interesses dos países europeus com atual
fornecimento russo, mas olhando para o cenário global de cooperação entre a
Alemanha e Israel podemos encontrar alguns traços “suspeitos” que levam a que a
questão anterior se coloque: entre eles, a visita
de Merkel à região onde visitou Yad Vashem, o memorial do Holocausto
em Jerusalém, mas não agendou uma visita a Ramallah, a sede da
Autoridade Palestiniana.
Oficialmente, a Alemanha defende
uma solução de dois estados neste conflito do Médio Oriente, no entanto, o apoio
demonstrado para com o estado de Israel ao nível económico, cultural e
científico pode significar algo diferente: A Alemanha é o maior parceiro
económico de Israel na União Europeia, com trocas no valor de 6.6 mil milhões
de dólares (2020), o governo alemão financia projetos individuais, mas também
organizações como o Goethe-Institut que ajudam à expansão do alemão como língua
estrangeira de relevância e ainda possibilita que israelitas prossigam estudos
e investigações na Alemanha através de prémios como os “The German Academic
Exchange Service”.
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