Cazaquistão: O discreto caminho para uma Potência Emergente


Neste artigo, Carlos Sousa Cordeiro apresenta o Cazaquistão como potencial potência emergente, uma nação esquecida ou muito ignorada, um estado confundido com outros com o sufixo persa “istão”, que significa terra de, e cujas únicas memórias da maioria dos ocidentais em relação a este estado são as parodias de um Cazaquistão fictício de Sacha Baron Cohen com “Borat! Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan” ou os estranhos e futurísticos edifícios que ocupam as paisagens das cidades da Ásia Central, contudo o Cazaquistão é um estado muito mais sério e relevante do que se possa pensar e têm tentando trilhar um caminho para se juntar ao clube das potências emergentes 

Cazaquistão, a última república soviética, durante 4 dias foi o último território soviético e o último declarar independência, 10 dias depois não existia mais a realidade de um espaço soviético. Atualmente é uma república unitária com um governo presidencialista e de partido dominante, ao longo dos seus 30 anos de história teve apenas dois presidentes: o “herói” Nursultan Nazarbayev e o atual Kassym-Jomart Tokayev.

Kassym-Jomart Tokayev à direita e Nursultan Nazarbayev à esquerda
Fonte: https://astanatimes.com/2021/11/nazarbayev-transfers-powers-of-nur-otan-party-chair-to-president-tokayev/

Esta nação túrquica independente há 30 anos, com cerca de 19 milhões de cazaques divididos entre 130 grupos étnicos (sendo a maioria cazaques étnicos) e 18 religiões diferentes (sendo o Islão a maior de todas) assume ter uma história de 750 anos desde Ulus Dzhuchi, filho de Genkhis Khan e que o seu povo partilha 4 paixões: Falcoaria, Artes Equestres, as Estepes e a Independência. 

É a maior nação da Ásia Central, o maior estado sem acesso ao mar e a 9ª maior nação do mundo, situado entre a Rússia e a China, visto como um vazio entre potências, um estado tampão e local de passagem da rota da seda tanto a antiga como a moderna, idealizada pela China. Cazaquistão mudou o seu rumo e quis mudar essa mentalidade, sendo essa a sua chave como mais abaixo veremos. Atualmente o Cazaquistão assume-se como o mais importante e poderoso país da Ásia Central e o seu legítimo líder, representando 60% do PIB de toda a região, com uma economia assente na indústria de extração de urânio, petróleo, carvão e do gás natural assim como nos seus vastos minerais e materiais raros essenciais para as modernas indústrias tecnológicas, com mais de 370 mil milhões de dólares de investimento estrangeiro e 6 mil empresas e joint-ventures com empresas europeias e é a base de centenas de infraestruturas de trânsito e transporte como caminhos de ferro, estradas e portos no Mar de Cáspio que ligam a Europa, Rússia e os dinâmicos mercados asiáticos como o da China. 

A Prova máxima de que o Cazaquistão pretende ser uma potência emergente e quem sabe um novo poder na eurásia é a sua política externa baseada no princípio de Nazarbayev “Paz na própria casa, paz na própria religião, paz no mundo”, levando o país a ser um exemplo e um membro responsável na comunidade internacional, assumindo missões responsáveis como a da presidência da OSCE, em 2010, mas não ficou só por aqui, têm sido um dos fundadores e idealizadores de várias estruturas multilaterais na região da eurásia como a União Económica Euroasiática e a Organização dos Estados Túrquicos, mas também promovendo diálogos entre organizações da região e ainda uma participação ativa em diversas iniciativas como a Conferência sobre Interação e Medidas de Construção da Confiança na Ásia, a Green Bridge Partnership Programme, vendo a recompensa por este esforço em ações como a sua eleição para o Conselho de Segurança da ONU, sendo o primeiro estado da Ásia Central a conseguir tal feito, participando de modo ativo na resolução de problemas regionais como a crise e guerra no Afeganistão e ainda sediando as conversações entre o ocidente e o Irão assim como da guerra civil síria.

Não é só a economia e o multilateralismo que são as chaves cazaques para ser uma potência emergente, mas também o caminho pacífico e histórico que o Cazaquistão vem a trilhar, com o fecho das áreas de testes nucleares, cerca de 500 e a rejeição do quarto maior arsenal nuclear do mundo, herdado através da URSS e entregue a Rússia com a decisão corajosa e única de deixar de ser um estado de capacidade nuclear, verificando-se uma abordagem de paz e de cooperação com uma comunidade internacional. 

Cazaquistão hoje é considerado símbolo do progresso económico e desenvolvimento sustentável dos países pós-soviéticos fora da Europa, estando na vanguarda mundial das reformas de mercado, é das repúblicas mais bem sucedidas e prósperas da antiga URSS, claro que a medida que a prosperidade dos cidadãos e o desenvolvimento da sociedade civil cresce e se fortalece, há uma exigência maior de democratização como foi possível verificar nos protestos de janeiro de 2022, que ao contrário da crença de muitos ocidentais de que era com objetivo de derrubar o regime, eram na verdade um chamar por reformas e alternativas.

Mantendo as políticas do antecessor baseadas no princípio também por ele desenvolvido “economia primeiro, política depois”, o atual presidente cazaque, herdou por sua vez as demandas políticas, com a economia estável e crescente, a “política depois” chegou e baseando-se noutro princípio de Nazarbayev “Estado que ouve”, abriu o regime cazaque, com medidas que visam melhorar a qualidade de vida, reforçar os valores democráticos na sociedade e na administração pública.

Contudo a emergência do Cazaquistão como potência está condicionada pela presença de superpotências como a China e a Rússia, nomeadamente esta última que considera a Ásia Central um dos seus espaços de influência e poder e vê o Cazaquistão juntamente com a Bielorrússia como os seus aliados mais próximos, alguns dirigentes russos até vêm mesmo como parte integral da Rússia, dificultando os objetivos cazaques de uma Ásia Central estável, economicamente próspera, aberta à cooperação e aos investidores, livre da influência da Rússia, China e de outras potências instaladas por perto como os EUA, apenas uma capacidade diplomática e pacífica flexível com a Rússia levará o Cazaquistão a conseguir tais objetivos, talvez servindo mesmo de espaço de contacto entre a Rússia e o restante do mundo, tendo em conta a atual situação geopolítica e geoeconómica que o mundo vive.


Anexos:

Anexo 1: Cazaquistão



Fonte: https://www.nationsonline.org/oneworld/map/kazakhstan-political-map.htm

Anexo 2: Ásia Central



Fonte: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/2/29/Central_Asia_borders4.png


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