Boicotar ou não boicotar? - desporto e Estados Unidos: uma perspetiva.

Tribuna Noturno: Falando sobre Shakespeare, "Hamlet" e a Tragédia

PEDRO MATOS analisa e comenta a política externa desportiva dos Estados Unidos em eventos desportivos mundiais. 

 

Boicotar ou não boicotar, eis a questão. Será mais nobre os EU aceitarem as violações de direitos com que a fortuna, enfurecida, alveja os humanos, ou insurgir contra um mar de provocações e com boicotes pôr-lhes fim?

 

Foi a parafrasear William Shakespeare que encontrei a melhor maneira de expor o dilema recorrente para as administrações americanas. A escolha dos anfitriões dos eventos desportivos mundiais pode ser difícil, a decisão muitas vezes levanta contestação e criam-se palcos para ativismo político.

 

Neste artigo, vou explorar o impasse em que os EU se encontram perante o apuramento para o Campeonato Mundial de Futebol 2022, considerando as ações nos Jogos Olímpicos de Inverno 2022 da China. 

 

O busílis do problema consistia na resposta a ter que ser dada a respeito das violações dos direitos humanos por parte das autoridades chinesas. Em causa está a comunidade muçulmana Uigure na província do noroeste da China, Xinjiang. As atrocidades passam pelo enclausuramento em “campos de reeducação” destes praticantes, onde as mulheres são esterilizadas, abusadas sexualmente e torturadas, e os homens sujeitos a trabalho forçado. 

 

As respostas da comunidade internacional variaram entre a total adesão, a não adesão com a justificação da pandemia Covid-19 ou a não ida às cerimónias de abertura e encerramento. Já a americana foi um meio termo entre a mera ausência no acender da tocha olímpica nos Jogos Olímpicos de 2008, também na China, e a proibição de participação nos de 1980 da União Soviética. A 6 de dezembro de 2021, a administração de Joseph Biden declarou que nenhum oficial representante iria voar para a China, no que ficou conhecido como “boicote diplomático” justificado pelo "genocídio corrente". 

 

Alguns dizem que este tipo de pequenos feitos com grandes intenções não mudam a atitude dos malfeitores, contudo, creio que o simbolismo do pouco que é feito importa o suficiente para os justificar. No passado, regimes procuraram receber este tipo de eventos para afirmar o seu poder.

 

Por exemplo, a Alemanha Nazi, com os já referidos Jogos Olímpicos de 1936, ou o Campeonato Mundial de Futebol de 1934 na então Itália Fascista, até a ditadura Argentina com o Campeonato do Mundo de Futebol de 1978. Este tipo de acontecimentos tem uma vertente de relações publicas em que a participação de um país significa a afirmação diplomática do anfitrião. Aliás, argumentos podem ser feitos em relação ao Campeonato Mundial de 2018 na Rússia, apenas quatro anos após a anexação da Crimeia, no modo como serviu de consolidação do regime de Putin.

 

Após o apuramento da Seleção Masculina dos Estados Unidos para a fase final do Campeonato Mundial de Futebol 2022 no Qatar, há decisões a ter que ser tomadas pela administração de Biden. 

 

A população do Qatar é de 2.8 milhões de pessoas, onde apenas uns estimados 300mil são cidadãos. O resto calcula-se ser trabalhadores estrangeiros, nomeadamente Bangladesh, Nepal e India. Trabalham sobre condições desumanas sob o sistema de Kafala. Neste, o trabalhador emigrante fica subjugado à vontade do patrão que é responsável pelo visa. 

 

Com o anúncio da localização da Copa, em 2010, o Qatar começou a preparar-se construindo 7 novos estádios, uma nova linha de metro, hotéis, estradas e um aeroporto. Muitos dos referidos trabalhadores integram estes projetos.

 

Trabalhadores estes que não têm sindicatos, pagam para serem recrutados, alguns que não podem deixar o espaço de construção por não terem permissão de residência, trabalham, por vezes, 20 horas por dia sob o calor tórrido característico dessa zona, onde falta de segurança reina e há um número estimado de 6 500 óbitos relacionados com o ofício

 

Para além do mais, é um regime que não defende os valores democráticos. Valores pelos quais os Estados Unidos já usaram força para os assegurar noutros países. A homossexualidade é proibida e condenada, as mulheres têm direitos restritos têm muito baixas classificações nos índices democráticos

 

Tendo em conta a política externa adotada anteriormente, na minha opinião, os EU têm de assumir uma posição contra estes excessos. Não tão radical como em 1980, mas não tão simples como um “boicote diplomático”. Até porque as mortes e abusos do Qatar estão diretamente relacionados com o evento em si. Houve pessoas a perderem a vida para nosso entretenimento. 

 

Contudo, a administração de Biden ainda não se pronunciou quanto a esse assunto e não creio que o vá fazer. Até agora demonstrou todo o interesse no apuramento da sua seleção, o Qatar não é uma superpotência em competição, como é a China e como era a União Soviética, portanto as relações não são tão tensas, e o Campeonato Mundial de Futebol é o evento desportivo com mais audiência, o que proporciona mais prestígio e ganhos monetários, pelo que não vejo os EU a quererem abdicar desses benefícios.

 

Seria mais nobre os EU insurgirem contra o mar de provocações. Todavia, suspeito que aceitarão a fortuna enfurecida. Boicotar ou não boicotar? Nem creio que se levante essa questão.

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