As Vinhas do Irão e a Vindima Nuclear Americana

 


PEDRO MATOS analisa as relações entre os Estados Unidos da América e o Irão a respeito da produção de material nuclear e do Joint Commitement Plan of Action (JCPOA).

 

O que começou com uma crise de reféns em 1979, é agora um conflito sobre armas nucleares. Esta relação límbica entre tensão e cooperação, aparenta pender para este, contudo, argumento aqui que se mantém no outro. 

 

JPCOA foi um tratado assinado em 2015 pelos P5+1: EUA, Reino Unido, Rússia, França, Alemanha e Irão. Visava limitar os avanços e pretensões nucleares iranianas e permitir o seu supervisionamento pelas autoridades internacionais competentes. Em troca, as sanções impostas pelo ocidente iriam ser levantadas. Podendo o Irão recuperar verbas na ordem da centena de milhares de milhões de dólares. 

 

A atividade nuclear do Irão baseia-se no enriquecimento do urânio com o isótopo fóssil U-235. Com níveis de concentração deste átomo entre 3-5%, que foi o limite imposto, pode ser usado para alimentar fábricas em termos energéticos. Armas nucleares precisam de uma concentração de 90%. Foi também ordenada uma redução de 98% da quantidade de urânio, restando apenas 300Kg. 

 

Com a administração de Donald Trump, em maio de 2018, os EUA saem do JPCOA e o Irão considera-o sem efeito. Desta feita, reabriu uma das fábricas nucleares fechadas, melhorou a qualidade do material de investigação, produziu metal de urânio enriquecido (necessidade para a feitura de armas desta ordem) e aumentou para 60% a concentração de U-235 numa considerável parte do seu armazenamento. 

 

Já com a administração de Joseph Biden, e os seus compromissos de regressar às linhas gerais da política externas de Barack Obama, as expectativas de renegociar o acordo foram reavivadas. Apesar de longas, estando já na oitava ronda, as conversações agora tidas em Viena servem de aparência de cooperação, como referi acima. 

 

Todavia, é só uma ilusão. Se chegarem a um fim, o resultado das negociações não será amigável. Elenco os argumentos que suportam o meu ponto de vista:

 

- O Irão tem historial de fazer ultimatos, demonstrando a inflexibilidade e intransigência, por exemplo o ataque a petroleiros no Estreito de Ormuz quando o pedido de retirada de sansões foi negado;
 
- Mesmo enquanto a negociações decorrem, há crescem as inquietações fora de portas. As limitações impostas aos programas de mísseis iranianos, ou o ataque ao consulado americano em Erbil, Iraque, e a criação de uma “lista-negra” a 52 oficiais americanos envolvidos na operação que resultou na morte de Qassem Soleimani, servem de exemplo;
 
- Eleição de Ebrahim Raisi, o novo presidente iraniano, mais conservador e austero, que choca com o ponto seguinte;
 
- Complexificação das pretensões americanas. Se em 2015 o JPCOA se destinava apenas a controlar a atividade nuclear, em 2022, Biden pretender fazer acordos na política externa regional do Irão e também na produção de material bélico, não nuclear, nomeadamente, em relação aos mísseis balísticos. O Irão tornou-se um grande fornecedor dos grupos considerados terroristas daquela zona (Hezbollah do Líbano, Kataib Hezbollah do Iraque, Hamas da Palestina, entre outros). Quer Biden quer Raisi não pretendem ceder em nenhum dos dois pontos;
 
- Há reticência iraniana quanto ao cumprimento das obrigações americanas. Há o medo de que eles voltem a desvincular-se, tal como em 2018. Regressam as sanções económicas e perde-se tempo de investigação e desenvolvimento nuclear. Com as eleições americanas em 2024, caso ganhe o partido Republicano, que é declaradamente contra este pacto, essa hipótese é ainda mais latente: 
 
- A administração de Biden tem problemas maiores em mãos: pandemia, inflação, guerra na Ucrânia e o sempre presente adversário, China. Atenção prioritária a estas negociações não são incondicionais; 
 
- Com a dispendiosa guerra na Ucrânia, a economia russa encontra-se de rastos. Na tentativa de ganhar mais vantagem sobre o abastecimento da Europa, a Rússia quer o Irão e as suas exportações competitivas o mais restringidas possível. Ao ponto de ter conseguido sabotar as negociações de Viena com um pedido de última hora, não correspondido pelos Estados Unidos;
 
- China já concordou em ignorar as restrições impostas pelos Estados Unidos e comercializar com o Irão. Considerando que o grande receio iraniano é ficar isolado economicamente, este salva-vidas pode vir a ser de importância extrema para a não concretização do tratado. 

 

Caso não haja acordo, a situação pode escalar rapidamente. É estimado que demore quatro a seis meses ao Irão para ter armas nucleares (chegar aos 90% de U-235). Seis meses depois do abandono das negociações, o Irão poderá vir a ser uma potência nuclear. As sanções aumentarão e os olhos da outra potência nuclear da zona, Israel, virar-se-ão para Teerão. Por isto, o conflito parece-me mais provável que a cooperação. 

 

O que começou com uma crise de reféns em 1979, é agora um conflito sobre armas nucleares. Os Estados Unidos não querem um inimigo poderoso numa das regiões geográficas mais importantes e o Irão quer afirmar-se. Teerão cultiva urânio e Washington quer colhe-lo. São as vinhas do Irão e a vindima americana.

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