A Repressão Talibã e a Inércia do Ocidente

 



Lara Rocha aborda a crescente repressão Talibã e a inação do Ocidente perante a exposição das mesmas.

A recuperação do poder no Afeganistão por parte dos Talibãs no passado Agosto de 2021, gerou tensões no plano internacional. Atualmente o país encontra-se numa crise económica e humanitária, pois este novo regime deixa oculto as suas intenções e a sua estrutura, sendo que os seus interesses geram contestação por parte dos responsáveis políticos internacionais. O seu líder Mawlawi Haibatullah Akhundzada e outros membros de alto cargo raramente são vistos publicamente, suscitando questões em relação ao regime, bem como deixando muitas suspeitas em aberto. Este fator leva a que os meios de comunicação social e os decisores políticos se tornem tendenciosos em relação ao assunto.

Posteriormente o prévio regime talibã antes acabar no início da década de 2000, apesar de também impingir várias regras incompreendidas pelas mentalidades ocidentais, detinha uma maior abertura que comparado ao atual é inexistente. Com isto, a escolaridade primária feminina não estava completamente banida, no entanto era preferível que ficassem no em casa, no caso masculino a prática de desporto era regular bem como ouvir música tradicional. Embora continuasse a haver restrições, estas eram aceites pelas comunidades sob o seu controlo, pois em termos de qualidade mínima de vida (como alimentação e combustível) era mais acessível em termos monetários, assim como a possibilidade de aceder ao aeroporto.

No atual regime, o líder afirmou que seguia a sua interpretação do islão “uma leitura da lei islâmica como única fonte de direito e autoridade”, algo em comum com o anterior líder que na década anterior disse “Não estou preocupado com as nossas relações com o mundo. A minha tarefa é implementar as regras do Islão, nem mais nem menos do que isso”. Tratar o movimento atual como terrorista pode “vir a inflamar o próprio apoio terrorista”, que o Ocidente tanto teme. O cenário do atual regime prova ser ainda mais rigoroso do que o anterior, no passado 23 de março de 2022, após 187 dias de ponderação e a divulgação que as escolas seriam abertas a todos e que as meninas deveriam ter direito à educação, foi decidido que afinal as escolas não poderiam ser frequentadas pelo sexo feminino. Entre outras restrições as mulheres também já não podem viajar sem estar acompanhadas por homens e só podem aproveitar momentos de lazer em dias específicos fora de casa. As restrições para o sexo masculino também foram mais rigorosas: os homens sem barba nem trajes tradicionais estão proibidos de trabalhar para os escritórios do governo afegão. Na generalidade, a censura dos mídia também se demonstra mais austera, tudo o que sejam assuntos de alcance nacional está proibido de ser partilhado com o estrangeiro. As consequências que o povo está a sentir são devastadoras, pois atualmente cerca de 23 milhões de afegãos está a passar fome, o número de desempregados também escalou e os funcionários do governo sem salário, além disso, este cenário agravou com o surgimento de um seca devastadora. As estatísticas do país são assombradoras.

A resposta do Ocidente, após 20 anos do Afeganistão ser visto como o refúgio para o terrorismo, não deverá passar simplesmente por lançar sanções como restrições de viagem. Estes deverão agir de forma rápida e astuta para prevenir que a história se repita. Ignorar que os direitos e deveres não estão a ser reconhecidos e simplesmente deixar o povo afegão numa crise humanitária não é a solução. As promessas incumpridas dos talibãs deverão ter represálias, pois negar ao povo a mínima qualidade de vida não pode ser ignorado pelo Ocidente. No entanto o reconhecimento internacional para os Talibãs não é a sua prioridade, o que deixa os países do panorama internacional num impasse, visto que, ou optam por continuar a tratar os Talibãs como “pária internacional”, visto que as suas normas não se alinham com as dos outros países, ou prestam apoio ao regime através da assistência económica para que o país saia da crise.

As conversações com o Ocidente foram iniciadas quando 15 membros da delegação afegã chegaram a Oslo onde permaneceram 3 dias, demarcando a primeira visita à Europa desde seu retorno do poder no Afeganistão. Mais detalhadamente esta comitiva talibã somente formada por homens incluía um dos chefes da rede Haqqani, que pelos Estados Unidos da América são considerados uma célula terrorista e também são abertamente inimigos da Organização do Tratado do Atlântico Norte. As negociações estiveram focadas nos direitos humanos, sendo que a sua visita foi demarcada por reuniões com ativistas feministas e jornalistas, além dos respetivos membros das comitivas de inúmeros países da União Europeia e dos Estados Unidos.  A ministra das Relações Externas da Noruega afirmou que as negociações "não tratam de legitimação ou reconhecimento" mas também evidenciou que “Não podemos deixar que a situação política leve a um desastre humanitário ainda maior”.

António Guterres, secretário-geral Organização das Nações Unidas, deparado com a situação precária reiterou Seria errado punir coletivamente os afegãos só porque as autoridades não estão se comportando bem”. A ONU tentou arrecadar a fundos para a população afegã, visto que o apoio ao Afeganistão foi interrompido. Estes apoios internacionais rondavam 80% dos fundos nacionais. Após o movimento Talibã chegar ao poder os EUA retiraram cerca de 9,5 bilhões de dólares.