O papel preponderante da Coreia do Norte para a luta Chinesa

 


Paula Iordache apresenta o panorama à volta das tensões na península coreana perante os testes balísticos norte-coreanos realizados no início do presente ano, abordando o seu papel vantajoso para a agenda chinesa.

No dia 30 de janeiro do presente ano, a Coreia do Norte disparou um míssil balístico de alcance intermediário da província norte de Jagang, sendo este o seu sétimo teste de foguete este ano. À primeira vista, estes testes não se mostraram como muito alarmantes, uma vez que não eram as bombas nucleares nem mísseis balísticos intercontinentais, como os que o país asiático teria testado no passado. Contudo, a 24 de março lançou o que se acredita ser o seu maior míssil balístico intercontinental, tendo o projétil alcançado cerca de 1.000 km e tendo este chegado perto das águas territoriais do norte do Japão, na sua Zona Económica Exclusiva.

Mas estes testes não parecem estar a acontecer num momento de rotina. Em vez disso, estão a ocorrer numa altura de forte e crescente concorrência entre os Estados Unidos e a China, a outra grande potência do Pacífico.

Ely Ratner, secretário adjunto de Defesa para Assuntos de Segurança Indo-Pacífico dos EUA, declarou que dissuadir a China de atacar Taiwan é, neste momento, "uma prioridade absoluta". Ademais, ao justificar a retirada dos Estados Unidos do Afeganistão, o presidente Joe Biden argumentou que Washington precisava de reorientar a sua energia e recursos na "concorrência séria com a China". O pivô para a Ásia, há muito evasivo, está neste momento em marcha, e de forma clara.

Neste contexto, os testes da Coreia do Norte parecem contrair um novo significado, mostrando-se este prejudicial para as ambições norte-americanas. A crescente ameaça de ataques de mísseis norte-coreanos incentiva tanto o Japão e como a Coreia do Sul a evitar alienar Pequim, com a esperança de que este ajude a manter Kim Jong-un sob controle, uma vez que a China é o principal defensor e único aliado da Coreia do Norte.

Por outro lado, estes acontecimentos levam também o Japão e a Coreia do Sul provavelmente a redobrarem o seu foco de  militares em Pyongyang, em vez de apoiar as operações dos EUA noutros lugares da Ásia. Para além disso, caso os Estados Unidos tenham que reforçar a sua postura armada sobre a península coreana para aliviar os temores de Seul e Tóquio, melhor deter a Coreia do Norte, ou até combater num conflito real, Washington precisará de reposicionar as suas forças projetadas para restringir a China. O programa de armas norte-coreano foi durante muito tempo visto como uma responsabilidade para Pequim, dado o comportamento errático e imprevisível dos líderes da Coreia do Norte. Mas agora está a mostrar-se como um trunfo.

Alguns analistas sul-coreanos acreditam neste momento que a administração americana discute questões norte-coreanas com Seul não por pretender seriamente a sua resolução, mas sim para persuadir o governo sul-coreano a auxiliar os Estados Unidos na sua competição contra Pequim. Deste modo, a Coreia do Sul teme que a priorização do governo Biden com a China venha às custas da desnuclearização da Coreia do Norte.

Visto da perspetiva oposta, este é um desenvolvimento positivo para Pequim. Os analistas chineses tomam a Coreia do Sul como um elo fraco nas alianças entre a Ásia Oriental e os Estados Unidos, e Pequim pretende dividir Washington e Seul através de uma combinação de elogios e ameaças: em agosto de 2020, a mídia chinesa elogiou os esforços da Coreia do Sul para "ser objetivo e manter a sua amizade com a China", e várias semanas depois, analistas chineses elogiaram os da Coreia do Sul pela sua "bondade para com a China" num tempo de "supressão dos EUA". Todavia, depois de o presidente sul-coreano Moon Jae-in ter discutido Taiwan com Biden na cimeira de maio de 2021, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da República Popular da China alertou a Coreia do Sul não para "brincar com fogo".

As capacidades de mísseis da Coreia do Norte estão, deste modo, a ajudar a diminuição e desgaste da cooperação entre a Seul e Washington. Mísseis de entre os mais recentes ameaçam mais diretamente a Coreia do Sul, e aumentam as dúvidas de Seul sobre a eficácia da dissuasão dos EUA. Para além disso, a Coreia do Norte criticou publicamente as políticas dos Estados Unidos sobre Taiwan e ameaçou que "consequências trágicas" resultarão do apoio dos EUA.

Por outro lado, temos o Japão, que é mais difícil de se separar de Washington. Contudo, com as atividades da Coreia do Norte, especificamente com a escolha de lançar um míssil balístico intercontinental para perto das águas territoriais do norte do Japão, conseguiam que as atenções do Japão se alterassem para longe de Pequim.

Embora Tóquio tivesse a assumir um papel maior na dissuasão da China e em defender Taiwan, o Ministério da Defesa do Japão identificou as capacidades militares da Coreia do Norte como uma "ameaça grave e iminente", e não há dúvida de que o foco do governo se revirou para Pyongyang e as suas crescentes provocações. Pyongyang representa claramente uma ameaça muito mais direta à vida e ao território japonês quando comparado a Pequim, sendo complicado que os líderes japoneses se concentrem na China quando a Coreia do Norte mostra estar a tornar-se mais beligerante.