A guerra da Ucrânia - a mudança da política externa alemã
No passado dia 24 de fevereiro a Europa acordou com a terrível notícia de que a Rússia havia iniciado a invasão da Ucrânia. Na sequência da atitude belicista russa alguns Estados europeus alteraram as suas políticas externas e de defesa. Neste artigo Diogo Viegas analisa a transformação da política alemã.
Na manhã do passado dia 24 de fevereiro, a Europa acordava com a terrível notícia de que a Rússia havia iniciado a invasão da Ucrânia. Rapidamente, e à semelhança de outros líderes europeus, o Chanceler da Alemanha Olaf Scholz, que era um dos rostos da tentativa de resolução da crise por via diplomática, apressou-se a condenar publicamente a invasão, classificando-a como uma “flagrante violação do direito internacional” que “não pode ser justificada em circunstância alguma”.
Mas, desta vez, e ao contrário do que havia acontecido em 2014 aquando da anexação da Crimeia, a Alemanha não ficava apenas pelas palavras. Ainda antes do dia 24 de fevereiro, e em resposta ao reconhecimento das Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk, Scholz já havia decretado a suspensão do gasoduto Nord Stream II.
E a questão da invasão na foi ignorada. A 27 de fevereiro, um domingo, reuniu-se, em sessão extraordinária, o Bundestag. Naquele domingo Scholz fez um discurso de rutura com a política alemã das últimas décadas. “[…] com o ataque à Ucrânia, entrámos numa nova era. Em Kyiv, Kharkiv, Odesa e Mariupol, as pessoas não estão apenas a defender a sua pátria. Estão a lutar pela liberdade e pela sua democracia. Por valores que partilhamos com eles. Como democratas, como europeus, estamos ao seu lado - no lado certo da história! Com o seu ataque à Ucrânia na quinta-feira, o Presidente Putin criou uma nova realidade. Esta nova realidade requer uma resposta inequívoca. Nós demos uma. Como sabem, decidimos ontem que a Alemanha irá fornecer à Ucrânia armas para a defesa do país. Nenhuma outra resposta à agressão de Putin foi possível.”, declarou Olaf Scholz.
Com este discurso Scholz anunciou aquela que é a maior mudança da política alemã desde a II Guerra Mundial. O discurso de Scholz apresentou os pontos de viragem da posição alemã: envio de armas para a Ucrânia; sanções económicas contra a Rússia; reforço as tropas alemãs no flanco oriental da NATO e na Roménia; revisão dos fundamentos da política externa da Alemanha; e, reforço permanente das capacidades de defesa alemãs, com a criação de um fundo especial para as Forças Armadas.
Mas qual é a importância desta mudança da política alemã para a política externa europeia? Tem uma importância máxima. A política externa europeia surge da articulação das políticas externas dos 27 Estados-Membros e a política externa da União Europeia. Como referido no The Economist, a crise da Ucrânia não só provocou uma alteração da política alemã como demonstrou o enorme erro que foi a política energética alemã. Ao longo dos anos, Schröder e Merkel tornaram a Alemanha dependente da Rússia a nível energético e, por isso mesmo, dependentes de Vladimir Putin. Agora, a Alemanha vai começar a olhar com outros olhos para a transição energética, pilar essencial da autonomia estratégica da União.
Além disso, já podemos ver reflexos desta mudança ao nível da defesa na UE. Há cerca de um mês o Conselho de Negócios Estrangeiros aprovou a Bússola Estratégica para a Segurança e a Defesa (Strategic Compass for the EU). Neste documento, a Rússia é apresentada como uma ameaça à segurança da UE e, em reconhecimento dessa ameaça à sua segurança, a UE prevê o desenvolvimento de uma força de reação rápida com 5.000 militares. Além disso, o documento refere ainda a necessidade de reforçar urgentemente a mobilidade militar dentro da UE. Pode-se achar que a criação de uma força militar conjunta e uma identificação tão minuciosa dos problemas ao nível da defesa poderia ser feito se não fosse a mudança alemã? Nunca seria possível.
Scholz anunciou a 27 de fevereiro o inaugurar de uma nova política externa e de defesa alemã. Ao fazê-lo inaugurou também uma nova política externa e de defesa da União Europeia. A Bússola Estratégica já está desenhada. É a hora de redesenhar também a Política Comum de Segurança e Defesa.
Existem algumas preocupações relativamente ao armamento da Alemanha que se justificam com a memória do passado traumático da I e II Guerras Mundiais. Mas, na verdade, nada justifica esse medo atualmente. A Alemanha é uma democracia madura. O seu reforço militar é bem-vindo dentro da NATO, da UE e no mundo. Poder militar não significa guerra e agressão. Poder militar significa poder de dissuasão e quer a NATO como a UE estavam a precisar desse poder.
Após a saída do Reino Unido, a União Europeia estava sem liderança ao nível da política de defesa. Agora, com a crise da Ucrânia e a mudança da Alemanha, espera-se que essa liderança seja assumida pela Alemanha.
Fonte do cartoon: https://www.cagle.com/paresh-nath/2022/03/german-defence
Fonte da foto de Olaf Scholz: https://www.dw.com/pt-002/guerra-na-ucr%C3%A2nia-alemanha-anuncia-gastos-massivos-para-defesa/a-60933729