A fronteira entre o sonho americano e a miséria: Será a crise migratória fruto da ação dos EUA?
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Neste artigo, Carolina Midões Santos irá analisar a relação
entre os Estados Unidos da América e o vizinho México no que diz respeito à
problemática dos movimentos migratórios.
Os fluxos
de imigração para os Estados Unidos da América são, evidentemente, um fator
de estudo bastante discutido nas últimas décadas, se não mesmo no último
século. Estes fluxos não são constantes, sofrendo perturbações devido a
problemas dos países de origem destes migrantes ou problemas de ordem global. Neste artigo, o foco principal incide sobre a imigração
considerada “ilegal”.
As razões
para o ser humano abandonar o seu país de origem podem constituir uma longa
lista sendo os mais comuns casos de falta de emprego e oportunidades no país,
violência e distúrbios na cena política nacional, que colocam em risco as suas
vidas. A imigração não é obviamente um problema recente, sendo que desde o início
dos tempos, os povos sempre tiveram tendência para mudar de localização quando
as condições de vida já não fossem sustentáveis.
De acordo com o Council of Foreign Relations,
ao longo dos últimos 200 anos, México e Estados Unidos da América têm vindo a
aprofundar as suas relações de cariz diplomático, cultural e económicas, no
entanto, descurando das relações de foro territorial, migrações e no combate ao
narcotráfico.
A migração mostra-se o primeiro entrave nas
relações entre os dois países. Em 1831, 10 anos após se tornar independente
do colonizador espanhol, o México restringe severamente os fluxos de imigração
entre o Texas e os Estados Unidos, procurando derrubar a influência americana
no seu território nacional. É relevante mencionar que, em 1821, os EUA cederam
as regiões do Texas, Arizona, Califórnia, Novo México, Nevada e Utah ao vizinho
México e, como tal, era óbvia a influência norte-americana que perdurava nestas
regiões. O presidente Antonio López de Santa Anna procurava com estas medidas
de imigração e de tributação que a língua inglesa não fosse predominante
relativamente ao espanhol. Contudo, em 1836, Santa Anna foi sequestrado e
mantido em cativeiro onde foi forçado a assinar um tratado que daria a independência
ao problemático estado do Texas. Ao longo dos anos, o território
mexicano foi encurtando, ocupado pelos Estados Unidos.
As relações entre migração e estes dois países são
extensas, protagonizando momentos tensos tanto a nível político, como económico
e mesmo social como foi o caso do Repatriation
Program. O Repatriation Program é considerado até hoje, a maior
deportação em massa no continente americano, tendo sido afetados mais de 1.3
milhões de mexicanos residentes nos Estados Unidos.
Mais recentemente, podemos verificar uma melhoria nas
relações entre os dois países, com acordos económicos como é o caso do NAFTA.
O NAFTA representa um acordo entre México, Canadá e Estados Unidos da América e
é atualmente o segundo maior bloco económico, apenas sendo ultrapassado pela
União Europeia. É, especialmente relevante para as trocas entre os Estados
Unidos e o México, liberalizando todas as tarifas e quotas nas exportações a
partir de 1 de janeiro de 2008. O acordo NAFTA teve severas críticas tanto por
parte dos cidadãos e empresas americanos como por parte dos trabalhadores
mexicanos, fazendo também referência aos problemas de cariz ambiental. Relativamente
às críticas feitas pelos norte-americanos, prendem-se pela perda de
postos de trabalho no setor secundário, sendo que entre 1994 e 2010 quase
700 mil postos de trabalho americanos foram transferidos para o país vizinho.
Os direitos laborais daqueles que continuavam a trabalhar nos EUA também foram
colocados em causa com constantes ameaças por parte das entidades patronais de
que iriam deslocar a sua atividade para o México. Do outro lado da fronteira, o
impacto no mercado de trabalho afetou especialmente o setor primário, tendo
desaparecido quase 1.3 milhões de
postos de trabalho entre 1994 e 2004. Em compensação, o programa
Maquiladora, que conta com mão de obra barata mexicana alcançou um lugar de
destaque, empregando 30% da classe trabalhadora do país. Este tipo de fábricas,
apoiadas por este programa, estão indiciadas por maus-tratos aos trabalhadores,
condições precárias e inclusive casos de tráfico humano, mencionando também o
completo desrespeito pela preservação do ambiente. Estas condições apenas pioraram
com a pandemia do COVID-19. A 1 de julho de 2020, o NAFTA foi substituído pelo
United States – Mexico - Canada (USMCA).
Durante a administração Trump, a política de migração
foi brutal. Assistimos a discursos
de destilação de ódio onde o ex-presidente apelidou o povo mexicano de “violadores
e traficantes” e afirmou que eles mesmos iriam pagar a construção de um muro na
fronteira.
Atualmente, o Presidente Joe Biden, que prometeu mudar
a abordagem da casa branca perante a crise migratória na fronteira, não
apresenta resultados muito positivos. Perpetuam-se as detenções,
enjaulamento
de pessoas e os casos de mortes na tentativa de travessia aumentam cada vez
mais, não
sendo documentados por nenhuma fonte oficial. A dificuldade em estabelecer
uma relação positiva com Andres Manuel Lopez Obrador, presidente do México, representa
um entrave para qualquer avanço. Obrador, que por partilhar os mesmos ideais
populistas que Trump, conseguiu estabelecer uma
boa cooperação apesar de todos os incidentes diplomáticos e económicos não
mostra a mesma abertura para a nova administração.
Não será a crise migratória que os Estados Unidos
enfrenta uma situação de karma pela sua ação na América Latina ao longo da história?
Carolina Midões Santos
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