China, um novo Japão? - A mundialização de um conflito de origem europeia
ANDRÉ SANTOS avalia as intenções
expansionistas chinesas associadas à invasão russa da Ucrânia. À semelhança do império japonês que tinha também pretensões expansionistas materializadas pela invasão à Manchúria e pelo ataque a Pearl Harbor na Segunda Guerra Mundial. O que será que
se segue na cena geopolítica mundial? Será este impulso russo suficiente para
provocar uma invasão chinesa a Taiwan?
Desde a sua
separação em 1949, logo após a Segunda Guerra Mundial e a vitória comunista da
guerra civil chinesa, que a China pretende a
reunificação com Taiwan. A China defende, há já vários anos, que apenas pretende
criar uma ligação pacífica com a ilha permitindo a sua reunificação. Xi Jinping
considera Taiwan como parte integrante da República Popular da China e
demonstra esse seu entendimento da situação nas suas intervenções. Em 2019 afirmou:
“Não vamos descartar o uso da força e vamos manter todas as opções de medidas
necessárias. Isto dirige-se à intervenção estrangeira e ao pequeno grupo de
ativistas da independência e do separatismo e às suas atividades. Não se dirige
de todo aos compatriotas de Taiwan".
A posição
desta China em pouco se assemelha à posição russa. Os chineses apresentam,
nesta altura, uma economia estável e em crescimento e apresentam um grande
poderio diplomático e militar. Aliada a esta força tem a vontade política e
apresenta, com Xi Jinping, uma atitude ofensiva e agressiva tal, que nunca havia
sido vista nesta dimensão neste país. A política externa chinesa tem como
principal objetivo, com o seu atual líder, a reunificação do país e a
valorização do nacionalismo chinês.
Porém, no seguimento da invasão
da Ucrânia, a China dá claros sinais de proximidade com a forma de agir da
vizinha Rússia com o objetivo claro de definir uma frente conjunta de combate
ao Ocidente. Esta ideia, no entanto, resulta de um pensamento egocêntrico
chinês. A parceria entre os dois países e o expectável apoio económico e
financeiro garantido pelo governo de Xi pretende proteger
o seu próprio regime impondo limitações às maiores potências ocidentais
que, segundo o mesmo, se apresentam como inimigos que pretendem restringir o
crescimento económico oriental.
Como principal inimigo e desempenhando
também um papel fundamental nesta situação, surgem os Estados Unidos da América.
Com
o início da era Biden, os EUA foram já postos à prova pelos estados
autocráticos por várias ocasiões, no entanto, foram mesmo decisões próprias
do país que revelaram algumas das suas fragilidades: A decisão de Joe Biden de
retirar as suas tropas do Afeganistão deram um sinal de instabilidade e cansaço
a líderes como Putin e Xi. Com a invasão da Ucrânia, o primeiro pretendeu provocar
uma vez mais os americanos com as suas intenções expansionistas, e a tomada de
decisão destes últimos – a de não enviar militares para o terreno – pode ter
sido considerada como um “sinal verde” para o avanço chinês.
A principal preocupação da China
com a situação russa são, essencialmente, as sanções económicas impostas à
mesma. A tentativa chinesa de se manter como um elemento neutro no problema da
invasão da Ucrânia está, claramente, a falhar como revelou em declarações
recentes de Julianne Smith, representante permanente dos EUA junto da NATO,
o que poderá deixar os EUA sobre aviso.
O envolvimento dos EUA na possível
invasão por parte da China de Taiwan deve-se à relevância económica que o país
asiático apresenta em relação à economia americana, sendo o seu nono
parceiro económico mais forte e representando uma enorme importância no cenário
económico mundial, sendo um dos maiores
exportadores tecnológicos.
Esta importância de Taiwan para o
cenário internacional pode resultar numa abordagem diferente das várias
organizações internacionais a uma possível invasão relativamente à que temos
assistido recentemente em relação ao conflito da Ucrânia. Por isso, alguns
especialistas consideram menos provável que o governo chinês tome essa
iniciativa, apesar da existência de bastantes sinais do contrário, como exposto
previamente neste artigo. Segundo Craig Addison o
preço do impacto da guerra na produção de chips semicondutores seria alto
demais para a China a ponto de inviabilizar sua intenção de invadir Taiwan.
O envolvimento americano pode ser outra das "gotas de água" que poderão precipitar esta invasão chinesa, tendo já havido avisos por parte destes últimos muito recentemente, ainda antes da invasão russa à Ucrânia. Numa entrevista a uma rádio americana, já o embaixador chinês nos EUA tinha avisado: "se as autoridades taiwanesas, motivadas pelos EUA, continuarem no caminho da procura da independência, a China e os EUA irão muito provavelmente envolver-se num conflito armado".
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