“Somos todos Otakus” – A animação japonesa como transmissor de soft-power
ALICE SANTOS exalta a mestria japonesa na manipulação
do soft-power através do anime – um estilo de animação próprio do
país nipónico – após séculos de isolacionismo voluntário e dos desejos imperialistas
característicos da Era Showa
(1926-1989).
Devido à imposição de medidas de isolamento durante o período Tokugawa (1603-1867) que reduziram as relações japonesas com o ocidente e com a China ao mínimo essencial e que duraram 220 anos num período que fico conhecido como Sakoku (“país fechado”) e à adopção de uma política expansionista ao longo da Segunda Grande Guerra, seria de esperar que os japoneses tivessem maior dificuldade, pela falta de prática, em adoptar um tipo de política externa que não oscilasse entre a completa ausência de qualquer tipo de relações internacionais e a utilização de um violento hard-power. No entanto, na sua história recente, o Japão já se afirmou como uma potência cultural e tecnológica e, consequentemente como um exímio do manuseamento do soft-power.
Resumidamente, o soft-power, na sua definição original por Joseph Nye, funciona como a habilidade de influenciar o outro através da sedução, ao invés da coerção (hard-power). Os países que adoptam o soft-power como instrumento da sua política externa transmitem as suas ideologias, valores e objectivos políticos através da cultura (moda, cinema, arquitetura, gastronomia, tecnologia) e até de propaganda. A primeira grande oportunidade de envergar por políticas externas utilizando o soft-power no Japão surgiu em 1964 com a realização dos primeiros Jogos Olímpicos realizados no continente asiático, os Jogos de Tokyo. Através do mundialmente reconhecido evento desportivo, o Japão criou uma nova imagem de país democrático, pacífico e desenvolvido que tinha perdido durante a Segunda Guerra Mundial e expandiu a sua rede de comércio devido á utilização de meios de comunicação melhorados (como a transmissão em direto via satélite) que mostrou ao resto do mundo o seu poderio tecnológico durante os Jogos.
A animação japonesa – ou anime – será, no entanto, a forma de soft-power mais peculiar de todas as outras vias de transmissão de política externa nipónicas. O anime como estilo de animação/desenho moderno, nasceu em 1956 e tornou-se popular pelas mãos de Osamu Tezuka e do estúdio Mushi Productions em 1961. Porém, o sucesso destes desenhos animados e das suas adaptações em livros – os mangás – só se notará internacionalmente, no virar do século após a transmissão e publicação dos mangás e a passagem nas televisões dos animes de Pokémon e Dragon Ball e a estreia em cinema em 2002 do primeiro filme de anime a ganhar um Prémio da Academia, A Viagem de Chihiro de Hayao Miyazaki. Chamam-se, aos fãs de anime, “Otakus”.
Em termos estatísticos e segundo a Associação de Animação Japonesa (AJA), o consumo de anime e mangá e de todos os produtos associados como brinquedos, roupa, videojogos, concertos, convenções, tanto interno como externo, tem aumentado todos os anos desde 2002. De acordo com o último relatório da AJA, publicado em 2021 e com dados referentes ao final de 2019 e a todo o ano de 2020, a indústria cresceu 15% em relação ao ano anterior, marcando dez anos consecutivos de recordes anuais de crescimento das vendas. É de destacar, no entanto, a importância dos lucros conseguidos no estrangeiro que compõem, atualmente, 49,5% de todo o dinheiro conseguido pela indústria de animação japonesa. A AJA afirma ainda que é provável que, devido à crise de natalidade que o país atravessa e que tem provocado uma diminuição do principal consumidor (jovens pré-adolescentes), o peso do mercado externo ultrapasse o do mercado interno.
O sucesso em particular desta parte essencial da cultura nipónica no estrangeiro não pode ser apenas atribuído às equipas de marketing dos estúdios e editoras. O governo japonês tem apostado num plano de ação hands-on no que diz respeito à promoção do anime pelo globo, tendo mesmo altas figuras do poder se rendido à indústria reconhecendo o seu poder ao aparecerem em cerimónias e encontros oficiais e publicitando-a de alguma forma.
Porém, onde Tokyo brilha na manipulação do soft-power através do anime é na criação de uma “marca”, numa iniciativa criada pelo governo que reúne um conjunto de medidas e apoios que ficou conhecida como o “Cool Japan”. O movimento tem como objetivo principal a divulgação da cultura japonesa (onde, para além do anime, se insere a língua e tecnologia) com o fim de promover boas relações com outros países e lá promover a cultura japonesa ao mesmo tempo que o crescimento interno é estimulado.
À luz do programa “Cool Japan”, foram criadas várias iniciativas propositadamente relacionadas com o anime e que são verdadeiramente ilustrativas do soft-power japonês. Destaco, por exemplo, o Japan International MANGA Award, criado pelo então Ministro dos Negócios Estrangeiros, Taro Aso em 2007 e a fundação da Anime Tourism Association, em 2016, que todos os anos pública uma lista de 88 lugares de interesse a visitar para os fãs de anime. De acordo com um estudo da Associação de Turismo Japonesa, realizado em 2017, estima-se que 1.43 milhões dos 31.19 milhões de turistas tenham visitado o país com o intuito de visitar sítios associados à indústria.
O país do sol nascente, fazendo uma utilização exímia do soft-power, foi se inserindo nas sociedades ocidentais num processo lento de aculturação que apresentou ao resto da população mundial, as TV’s Sony, as consolas Nintendo, o sushi e o anime. Agora, o Japão colhe os frutos do sucesso da sua jogada no palco da política externa. Na sua jornada para se afirmar como uma potência mundial cultural e fazendo utilização de um dos mais fascinantes produtos da sua história milenar, o país nipónico lucra com os 24 mil milhões de dólares que a indústria do anime lhe rendeu em 2019.
Num suspiro de absoluta rendição pelas vitórias japonesas no âmbito da partilha da sua cultura posso mesmo anunciar: “Já somos bastantes Otakus.”
Alice Santos || Nº227731 || 18 de Março de 2022
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