Rússia e a sua Política de “Vizinhança”: Abordagem da Guerra Russo-Georgiana


 

Fonte: Deviant Art



Anastasiya Shevchenko aborda a política externa de "vizinhança" da Rússia, analisando o caso da Guerra Russo-Georgiana.


A conversão do sistema internacional no fim do século XX, nomeadamente, a extinção da superpotência do Leste e a vitória da democracia, do liberalismo e do capitalismo no continente europeu levaram a diminuição gradual da esfera de influência da Rússia. Tal facto resultou numa causa principal das ações russas no campo da política de relacionamento internacional.

No espaço da Política Externa ou política de relacionamento internacional é fundamental compreender os objetivos e as estratégias para identificar as escolhas e as prioridades de um ator, que derivam das suas necessidades, preocupações, intenções e dinâmicas internas, e, assim, incluir o mesmo num padrão de relacionamento, como, o conflito, a cooperação e a competição.

A hierarquia dos objetivos depende das prioridades de cada estado, sendo que a maximização de um objetivo poderá comprometer o outro. As decisões frequentemente não são consensuais, bem como, implicam a seleção de meios com o fim da sua implementação, isto é, carece de uma conexão entre os valores e objetivos e as políticas e ações e do apoio dos cidadãos durante a fase de formulação e, posteriormente, na execução.

De facto, o contexto histórico da Federação Russa revela importância na formulação da sua política externa, pois as decisões contemporâneas desse ator refletem situações semelhantes no seu passado histórico. A soma do decorrido no final do século XX e dos acontecimentos que tiveram lugar durante a época soviética retratam a realidade atual que tem presente inúmeros conflitos políticos e étnicos nos territórios da ex-União Soviética seguidos a sua dissolução em 1991. Estes conflitos são visíveis nos movimentos separatistas nos territórios de Nagorno-Karabakh (Azerbaijão e Arménia), Transnistria (Moldávia), Abkhazia e Ossétia do Sul (Geórgia), Donetsk e Luhansk (Ucrânia) e crises políticas dos estados recém-criados.

Estas perturbações regularmente não são cessadas com um tratado de paz, conduzindo a que os estados recém-criados formalmente continuam a exercer a sua soberania em pleno no seu território, mas na realidade este facto não se verifica, pois, o estado não detém o controlo das regiões separatistas. Estes territórios possuem instituições semelhantes e são independentes com pouco ou nenhum reconhecimento internacional. Por exemplo, a independência de Abkhazia e da Ossétia do Sul são reconhecidos pela Síria, Venezuela, Nicarágua, Rússia e Nauru.

 As ações dos atores estatais, nomeadamente, da Rússia e da Geórgia e dos movimentos separatistas das zonas de Abkhazia e da Ossétia do Sul levaram ao conflito armado conhecido como a guerra russo-georgiana ou a Guerra dos Cinco Dias ou, ainda, a Guerra de Agosto. O contributo deste conflito é muito relevante para a história e outras ciências sociais, já que é reconhecido como a primeira guerra no continente europeu do século XXI.

A génese do conflito georgiano-ossetiano na conjuntura contemporânea pode ser encontrada no final da década dos anos 80, mais concretamente com a intensificação do movimento nacional georgiano pela independência. A intervenção russa começou a intensificar com o Acordo de Dagomys, que criou um órgão denominado por Comissão Conjunta de Controlo e era composta pelos representantes da Geórgia, da Rússia, da Ossétia do Norte e da Ossétia do Sul. Este conflito interno provocou aumento das aquisições da cidadania russa,

o governo russo decidiu de forma unilateral intervir e passou a conceder passaportes russos a partir de 2000, (…) Ao mesmo tempo, porém, essa medida pode ser interpretada como parte da política de Vladimir Putin de readquirir influência sobre os antigos territórios da União Soviética  

Considerando as ações contemporâneas tomadas quanto ao território ucraniano acerca do efeito da “oferta” de cidadania russa, conclui-se, que, “a política russa de “passaportização”, ajuda económica e envolvimento político, associada às vantagens concretas que ela acarreta para as populações locais, tornam-se compreensíveis os temores georgianos de uma iminente anexação pela Rússia tanto da Ossétia do Sul como da Abecásia”.

Os estudos demonstram que a Rússia utilizou uma espécie de táticas híbridas militares e não militares, diplomáticas, económicas que visavam destabilizar o governo georgiano e a sua sociedade. A guerra híbrida é uma teoria inicialmente proposta por Frank Hoffman, que engloba conceitos como a guerra política, a guerra irregular e a guerra cibernética, ainda, destacam-se “fake news”, a diplomacia e a intervenção eleitoral estrangeira. Por exemplo, no campo diplomático,

Russia’s international diplomacy toward Georgia has had two main focuses over the years. First, it has aimed to isolate Georgia internationally and undermine the country’s relationship with partners in the West. Second, it has sought to establish a carrot and stick approach in its bilateral relations with Georgia that can be utilized to influence its decisions concerning foreign and security policy

Atualmente, Federação Russa tem vindo a aplicar estes métodos na Ucrânia,

Ukraine has seen unprecedented cyber-attacks against both the defense ministry and two large Ukrainian banks: PrivatBank and JSC Oschadbank. Individual customers and the whole online banking system were affected. This coincided with reports from the frontline in eastern Ukraine of intensified clashes between Russian-trained rebels from Luhansk and Donetsk and Ukrainian army forces. There have also been reports that the Russian parliament is on the verge of recognizing these self-pronounced people's republics

Do mesmo modo que a invasão russa na Ucrânia no passado dia 24 de fevereiro remete para a Guerra Russo-Georgiana, e, tal como, afirmou Primeiro-Ministro do Reino Unido, Boris Johnson, “Russia's actions in Georgia in 2008 and Ukraine in 2014, as well as the poisoning of Sergei and Yulia Skripals in Salisbury were warnings to the West”.

As ações russas poderão ser englobadas no conceito de “Sharp Power”, que segundo Journal of Democracy, visam limitar a liberdade de expressão, promover a confusão e distorcer ambiente político democrático com o fim de projetar a sua influencia internacionalmente, recorrendo a meios de censura e manipulação de instituições independentes.

Esta política de relacionamento internacional utilizada pelo estado russo representa o conjunto de escolhas realizadas quanto ao objetivo da proteção étnica das minorias russas existentes nos estados recém-criados, que, por sua vez, pertence ao padrão de relacionamento de conflito.

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