Quando a água se torna uma arma: Conflito Índia/Paquistão

Adriana Gomes, apresenta o contínuo conflito entre a Índia e o Paquistão, os possíveis futuros perigos e instrumentos de exercer pressão no outro Estado, como a água pode ser esse instrumento e apresentar novos riscos num campo de diplomacia frágil.  


Fonte: Engage EPW

Um novo desafio confronta os Estados, as alterações climáticas têm ganho uma força crescente e são cada vez mais sentidas em vários pontos do globo. Num planeta que não mais alimenta a ilusão de uma paz perpétua, especialmente após os últimos eventos na Eurásia, surgem novos fatores que poderão vir a ser decisivos nas relações diplomáticas ou conflituosas entre os Estados.

Assim se apresenta o conflito Índia/Paquistão, que apesar de já persistir desde 1947, ano em que a Índia teve asua independência e também a sua cisão que criou o Paquistão, este não impediu a continuação de um conflito étnico-cultural que já se sentia internamente. Atualmente o conflito em Caxemira não perdeu ímpeto, pelo contrário um novo fator entrou em cena, as alterações climáticas vieram causar o seu impacto nestes Estados e algo mais maquiavélico surgiu deste fator. O aproveitamento das alterações climáticas que estão a ocorrer não só pela própria subsistência do Estado em si, como também como forma de pressão ao outro Estado, assistimos a uma instrumentalização de um fator natural, incrementado pelo ser humano, como forma de pressionar o outro agente, esse fator é um dos bens mais essenciais à vida, a água.

Em Caxemira encontra-se a área mais rica em origens de recursos hídricos, como por exemplo, parte dos glaciares dos Himalaias, Indocuche é a origem de mais de dez rios essenciais paracerca de 1.3 biliões de pessoas. É nesta região, dividida entre China, a Índia e o Paquistão, que se encontra a nascente do rio Indo, rio este que está no centro das discussões entre o Paquistão e a Índia.

Fonte: ClearIAS


Cerca de 90% da produçãoalimentar do Paquistão depende do rio Indo qualquer alteração no seu leito e seus afluentes pode alterar por completo a economia deste país.

Hoje assiste-se ao aceleramento do degelo dos glaciares que provoca um aumento do caudal dos rios, conduzindo a cheias e moções. No entanto, a longo prazo este fenómeno irá comprometer o “reabastecimento” natural dos recursos hídricos. Ao mesmo tempo pensa-se que a necessidade de água no Paquistão suba de 163km3 em 2015, para 225km3 em 2050. Levantando já a questão se haverá água suficiente para saciar estas necessidades, não esquecendo estarmos só a olhar para o Paquistão e não estarmos a ter em conta que também a Índia e a China irão necessitar de mais metros cúbicos de água.

A diplomacia não tem sido uma escolha perpétua entre estes dois Estados, muitas vezes partiram para situações de violência física, mas apesar dessas tem sido através de acordos feitos com uma terceira parte a mediar, que se tem segurado a relação entre a Índia e o Paquistão.

Um acordo que tem servido de peso e medida nesta relação é o Indus Water Treaty (IWT), estabelecido em 1960, mediado pelo Banco Mundial, entre a Índia e o Paquistão. E segundo o Banco Mundial este é um dos mais bem sucedidos acordos alguma vez estabelecidos, porém, a complexidade dos efeitos das alterações climáticas pode vir a pôr em causa todas as conquistas que este acordo teve. No IWT ficou declarado que a Índia tem acesso amplo aos rios Ravi e Sutlej, enquanto o Paquistão tem total acesso ao rio Indo, Chenab e Jhelum.

Fonte: Vivekananda International Foundation


No entanto o início do rio Indo está em território indiano, as barragens que nele foram feitas acabam por controlar o fluxo do rio, colocando o Paquistão na mão da Índia.

Não fazendo escolhas de lados e procurando uma análise imparcial, a verdade da situação é que o Paquistão está muito mais dependente apenas e só de um rio do que a Índia. A situação agrava-se quando as relações entre estes dois agentes são de conflito e raramente de cooperação. Imaginemos que Portugal e Espanha não mais tinham relações de cooperação, nem agentes capazes de mediar imparcialmente a situação. O que aconteceria à economia e consequentemente à população, se rios como o Tejo e o Douro fossem secados do lado português?

O poder do lado indiano é evidente, o medo do lado paquistanês sobre a possível construção de mais barragens e diques também é facilmente observado e justificado.

Assistimos a uma relação tensa entre estes dois Estados, que não tem tido sinais de melhoria, e visto serem ambos potências com força nuclear o risco de autodestruição em caso de conflito armado é claro. Mas agora assistimos à possibilidade da utilização da água, um softpower mas que na realidade tem os mesmos impactos, se não maiores, que o hardpower na população.

A crescente competição entre as duas potências em ascendência, China e Índia, aumentam a necessidade por parte da Índia em reclamar mais poder, mais meios e a sua influência dentro e fora do seu território. O Paquistão que também procura, a um ritmo completamente diferente, o seu crescimento, vê se na corda bamba, dependente da boa vontade indiana para continuar a saciar a sua necessidade natural de água.

Assim temos a água, um bem totalmente indispensável à vida, a ser utilizado como arma. Instrumentalizar este recurso, com a responsabilidade de condenar à seca e à sede milhões de pessoas, animais e terras. Um bem que não se deve negar é agora utilizado como forma de pressionar, como se de bens e economias se tratasse, e não de uma simples necessidade básica.

O conflito Índia/Paquistão não se iniciou por água, mas poderá fácilmente acabar por ela, quando os Estados passarem esta linha ténue entre um softpower e hardpower, sem necessitar de recorrer se quer à força nuclear.

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