O Profeta de Kiev: Kadhafi





Hugo Oliveira explora as semelhanças entre o conflito a norte do Mar Negro, em Março deste ano, e a guerra civil na Líbia, em 2011.


            É facto que os epicentros das crises mencionadas - Donbass e Bengasi, respectivamente - pouco ou nada têm em comum do ponto de vista socio-cultural ou geográfico, porém, ambos convergem devido aos interesses geradores de conflitos por parte das grandes potências mundiais.


            Por um lado, na Europa Oriental, temos vindo a assistir nos últimos 30 anos, desde a dissolução da URSS, a uma pressão constante por parte da NATO para que as antigas repúblicas soviéticas adiram à aliança norte-atlântica. Tal aconteceu com os países do Báltico: Estónia, Letónia e LituâniaDesde a guerra híbrida de 2014 que o espectáculo de Zelensky em Donbass angariava cada vez mais palmas do Ocidente, mas foi em Março deste ano que o sorriso de Putin chegou ao fim.


            Já a Líbia, por outro, perdeu a sua soberania em 2011, após mais uma intervenção da NATO em jeito de demonstração do que o imperialismo ocidental causa quando leva ao fim a sua missão de impor valores universais, ignorando a cultura e os costumes locais. Instalou assim o terror, a fome e trouxe de volta a escravatura, naquele que era o país africano mais próspero e desenvolvido, possuindo o maior IDH, esperança média de vida e PIB per capita do continente.


            Após esta crise, a nação do Norte de África foi dividida em três regiões: Tripolitânia (a Noroeste), Cirenaica (a Este) e Fezão (a Sudoeste), controladas por organizações paramilitares, tal como acontece em Mariupol, cidade localizada na região de Pryazovia, Ucrânia, onde está sediado o Batalhão Azov.




Fig.1 - Mapa da Líbia.

 


            Foi no passado ano de 2021 que, no Fórum de Genebra, foi traçado um plano para assegurar um ato eleitoral livre na Líbia, com Dbeibah no cargo de chefia do governo de transição. Todavia, foi um fracasso absoluto.


            Dbeibah foi o homem escolhido pela ONU para liderar o regime de Trípoli, apoiado por Washington, logicamente. Contudo, bastou mais uma tentativa de intervenção forçada pelo Ocidente para o povo líbio se manifestar contra o sucedido e apenas com o auxílio de Ancara e Moscovo é que a Líbia voltou à normalidade. Foi então proclamado Primeiro-Ministro Fathi Bashagha, ex-ministro do Interior, com o apoio do parlamento de Tobruk e do Exército Nacional Líbio, liderado pelo General pró-Kadhafi Khalifa Haftar.


            Como seria esperado, Dbeibah fez tudo para que o novo governo de Bashagha não tomasse posse, fechando imediatamente o espaço aéreo líbio. Estranhamente (ou não), no dia 3 de Março de 2022, três ministros executivos do governo de Bashagha foram sequestrados por milícias de Misrata, ligadas a Dbeibah. Claramente que o homem escolhido pela ONU não tratou de todo este processo sozinho, foram as forças ocidentais que estiveram nos bastidores a colocar civis em risco como se de peças de xadrez se tratassem, tal como aconteceu durante e após o Maidan de 2014, na Ucrânia.

 



Fig.2 - Abdul Hamid Dbeibah e o Primeiro-Ministro Fathi Bashagha.

            


            Ora, permitir a influência russa na Líbia significaria um recuo geopolítico significativo para os EUA, Reino Unido e França que, sempre que tiveram oportunidade, tentaram manipular o rumo do país africano.


            Não é, portanto, fruto do acaso que o criador da Jamahiriya, Muammar Kadhafi, tenha afirmado numa entrevista à Russia Today em Agosto de 2009: “A NATO está a tentar arrastar antigas repúblicas soviéticas para a sua esfera de influência e isso apenas pode ser traduzido como uma ameaça de grande perigo para a Rússia”. [visto que o site da Russia Today foi censurado na União Europeia, não consegui aceder à fonte original]


            O antigo líder líbio pronunciou-se igualmente acerca das relações tensas entre a Rússia e a Ucrânia, muito antes da revolução colorida de 2014. Afirmou que, durante a sua visita a terras ucranianas, já estava convencido de que sérios problemas se seguiriam entre os dois países, apontando o interesse por parte de Kiev para aderir à aliança do Tratado do Atlântico Norte como um dos maiores problemas.


            Em Abril do mesmo ano, Kadhafi publicou um artigo em que abordou a necessidade que o Ocidente tem em tentar conquistar aquele que é o heartland, tal como aconteceu no século XIX com Napoleão e durante a Segunda Guerra Mundial com Hitler. Desta feita, o autor do Livro Verde defendeu que a NATO pretenderá avançar com novas investidas, aproveitando a desintegração da URSS, com o intuito de cercar o regime de Moscovo por todos os lados.


            Com as merecidas críticas, sobretudo no aspecto dos direitos humanos, que se fazem ao homem que reconciliou o pan-arabismo e o pan-africanismo, importa assinalar que foi Kadhafi quem elevou a taxa de alfabetização de 25% para 87%tornou gratuito o sistema de saúde, desenvolveu o maior projecto de irrigação do mundo, com o intuito de disponibilizar água para todos líbios, entre outros.


            Seja na Jugoslávia, em 1999, no Afeganistão, em 2001, no Iraque, em 2002, no Irão, em 2005, na Somália, em 2006, na Líbia, em 2011, na Síria, em 2011 ou no Iémen, em 2014, a essência do novo imperialismo globalista e pós-moderno caracteriza-se pelo fanatismo de fazer chegar o livre-mercado a todos os cantos do mundo, violando a soberania das nações.


O que nos torna diferentes é o que nos torna relevantes.



— Hugo C. Oliveira, nº 226658



Comentários

  1. Muito bom, especialmente por fazer refletir sobre se o imperialismo não será uma inevitabilidade, venha de onde vier. É escolher o menos mau.

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