No seguinte artigo, Miguel Gavino expõe os tramites do atual regime da Singapura, considerado um "Soft authoritarianism", analisando a conjuntura económica desta nação, assim como as características do sistema político da mesma.
Considerada por alguns autores como sendo a primeira ditadura do mundo bem sucedida, a República da Singapura é uma ilha no sudeste asiático que possui a terceira maior taxa de densidade populacional do mundo. A população habitante é multicultural e composta por diversas identidades culturais que o governo reconhece e respeita.
Abordando levemente a história do surgimento desta nação, a Singapura é uma ex-colónia britânica, tendo sido alvo do domínio dos ingleses por um período de 140 anos. Durante a segunda guerra mundial, em 1942, o território foi ocupado pelo Japão. Porém, após a rendição dos nipónicos ao bloco ocidental, o controlo da ilha voltou a pertencer aos britânicos. Em 1963, a Singapura passou a compor a Nova Federação da Malásia, mas divergências ideológicas culminaram na expulsão do país, levando à independência do mesmo a 9 de agosto de 1965.
Apesar de, no que toca a recursos naturais, a condição geopolítica da Singapura não ser considerada propriamente favorável, o país notou um rápido desenvolvimento alicerçado em investimento externo e na transformação do país num
"centro de manufacturas": — produzindo navios, componentes eletrónicos, ou maquinaria de precisão.
Granjeado de uma
carga fiscal leve e de uma quantidade reduzida de processos burocráticos, o pais tornou-se rápida e propositadamente um palco para o investimento externo — e para o acolhimento de empresas estrangeiras que alteram a sua sede para o território em causa — atingindo a conotação de paraíso fiscal.
Sem petróleo, gás natural, diamantes ou outros recursos cobiçados no seio internacional, o governo singapuriano nunca teve de enfrentar invasões, ou outro tipo de pressões externas, criando um caminho sem atrito para o crescimento económico.
De facto, obras literárias têm comparado o modo de governança do governo da Singapura à
gerência de uma empresa. Segundo o artigo de Louis Kraar para a revista Fortune, o país "pretende, sobretudo, eficiência, com o governo a monitorizar todos os aspetos da sua economia e da vida do povo, desde a agenda transmitida nas escolas, às relações diplomáticas externas, pretendendo a melhor relação custo-eficácia possível."
O regime desta ilha asiática tem progressivamente sido alvo de debate na esfera internacional, que tem tido dificuldades em catalogar o regime, ou em inseri-lo no espectro político. Isto, pois, a Singapura é considerada uma rara mistura de autoritarismo com princípios e características democráticas. Porém, a justificação do governo para as características autoritárias presentes no quotidiano da população, é que foram implementadas para possibilitar um crescimento económico rápido — argumento que, após a análise dos supracitados indicadores económicos e sociais, é incontestável.
Segundo o index do Indíce de Desenvolvimento Humano relativo ao ano de 2019, a Singapura deteve uma posição invejável, com o 11.º IDH mais elevado do mundo. Em adição, de acordo com
dados do FMI de 2017, a Singapura é a terceira nação do mundo com o GDP (
gross domestic product) mais elevado, perfazendo também o Top 10 de paraísos fiscais do mundo.
É de apontar ainda, que o enfoque governamental não é estritamente económico: a Singapura destaca-se também nos indicadores sociais, como a Saúde, Segurança, Habitação — com 91% da população tendo a sua própria casa. A esperança média de vida, segundo
dados do worldometers, é a sexta maior do mundo e a velocidade de conexão à internet pontua também entre as mais altas. Por fim, evidencio ainda que a Singapura detém uma das mais baixas taxas de mortalidade infantil do mundo, assim como uma das
mais reduzidas taxas de corrupção.
A imensa quantidade de indicadores favoráveis que a Singapura possui levantam a seguinte questão: como se caracteriza o regime singapuriano para que tal prosperidade e desenvolvimento sejam possíveis?
Após o partido regente, People's Action Party (doravante referido como PAP) ter sido democraticamente eleito, iniciou rapidamente um processo de "limpeza" ao regime da altura. Argumentando querer eliminar todas e quaisquer formas de instabilidade, o PAP rapidamente suprimiu forças de oposição socialistas, sindicatos, ou movimentos de ativismo estudantil. O partido acabou por, de forma impune, prender — ou fazer desaparecer — a grande maioria dos membros destes organismos.
Visando tornar-se um destino atrativo para mega-corporações e multinacionais "estabelecerem loja", a Singapura implementou medidas de caráter ultra-capitalista. Porém, simultaneamente, foi criado um forte
Welfare State que resultou na implementação de algumas das melhores características atuais do regime, que se refletem nos diversos
indicadores económicos e sociais.
Liderado até 2015 por "uma das personalidades mais marcantes da história recente do país e, mesmo, do Sudeste Asiático, Lee Kuan Yew" (
SERRA, p.3), o PAP detém o poder há quase 6 décadas.
Nas recentes eleições de 2020, nunca foi posta em causa a possível derrota do partido, nem a existência de quaisquer alterações na direção ideológica do país.
O povo singapuriano estaria bem ciente que o PAP venceria o sufrágio com resultados a rondar os 60/70% dos votos, sendo que se rondassem a casa dos 60%, seria considerado uma humilhação para o partido, criando e aumentado especulação sobre o futuro do mesmo. Caso o PAP atingisse os 70% de votos, os resultados seriam considerados positivos, refletindo o maior apoio dos últimos 20 anos e consolidando a hegemonia do PAP a curto-médio prazo.
Nas eleições em questão, o resultado foi de 61,4% dos votos. Apesar de ter sido um outcome negativo para o partido, marcado por um sentimento geral de humilhação, a margem de vitória continua a ser muito superior quando comparada com atos eleitorais de democracias livres. Mesmo assim, a população deste país não considerou quaisquer outras possibilidades, atitude esta refletida nos resultados dos partidos da oposição, como o Workers party, o Democratic Party, ou ainda o Progress SG Party.
Fica a seguinte questão: valerá a pena o trade-off de princípios democráticos por estabilidade, uma economia invejável e um forte estado social?
Finalmente, respondendo à questão cerne do presente artigo, quando um partido governa sem ser interrompido durante 60 anos, sem qualquer accountability, e sem oposição relevante para atrasar os objetivos do PAP, não existiu qualquer atrito para cumprir os seus planos. Assim, facilmente se explica as ruas limpas, o sistema de saúde invejável, a vasta e extremamente eficaz infraestrutura de transportes públicos.
Comentários
Enviar um comentário