O falhanço da Diplomacia Europeia na Guerra Rússia-Ucrânia
No passado dia 24 de fevereiro iniciou-se a invasão russa à Ucrânia. Neste artigo Diogo Viegas defende que a diplomacia da União Europeia, representada ao mais alto nível por Angela Merkel, Emmanuel Macron e Olaf Scholz, falhou na prevenção desta crise.
Três dias antes do início da invasão russa à Ucrânia, Anne Applebaum escrevia para o The Atlantic que na crise Rússia-Ucrânia não havia Chamberlains. Argumentava Applebaum que passados mais de oitenta anos da cedência de Chamberlain a Hitler relativamente à Checoslováquia, os europeus e americanos não cediam perante um ditador, Vladimir Putin, e exigiam em uníssono a retirada das tropas russas da fronteira ucraniana.
Mas será verdade que não existem Chamberlains nesta história? Percebo o ponto que Applebaum defende no seu artigo, mas discordo. Existem pelo menos dois Chamberlains nesta história - Angela Merkel e Emmanuel Macron.
Recuemos até 2014. Angela Merkel era Chanceler da Alemanha. Emmanuel Macron viria a ser Ministro da Economia, Indústria e Assuntos Digitais de Manuel Valls. Nesse ano a Rússia anexou ilegalmente a Crimeia e Donetsk e Lugansk assumira-se como Repúblicas Populares. Em resposta à anexação ilegal da Crimeia, a União Europeia (UE) suspendeu todas as conversações bilaterais com a Rússia, apoiou a expulsão da Rússia do G8 e aplicou sanções económicas às personalidades e entidades ligadas às ações do Kremlin. Era esperado que a União acordasse para o perigo iminente às suas portas, mas tal não aconteceu, em grande parte devido à posição da Alemanha, “uma nação que passou quase 80 anos a definir o seu próprio interesse nacional em termos puramente económicos” e que tinha negócios com a Rússia.
Um ano passado da anexação ilegal da Crimeia, a Alemanha e a França promovem os acordos de Minsk, um fracasso total da diplomacia europeia. Assinados os acordos, a Alemanha prossegue os seus interesses económicos e avança com a assinatura dos contratos do Nord Stream 2. Em 2017 Emmanuel Macron é eleito Presidente da França e no ano seguinte, ignorando o falhanço dos acordos de Minsk, a Alemanha concede as licenças necessárias para se prosseguir com o Nord Stream 2. Pouco tempo depois dá-se a tentativa de assassinato de Sergei Skripal. Tudo continua igual para a UE.
Três anos passados da sua chegada ao Palais de l'Élysée, ignorando a ocupação da Crimeia, o fiasco dos acordos de Minsk e a tentativa de assassinato de Skripal, Macron é o convidado de honra da parada do Exército Vermelho. Pouco tempo depois dá-se uma tentativa de assassinato contra Alexei Navalny. Na sua despedida das funções de Chanceler, Merkel vai até Moscovo. Pede a libertação de Navalny, Putin responde-lhe dizendo que faltam 15 km para se terminar o Nord Stream 2, símbolo da era Merkel onde a dependência alemã do gás russo passou de 33% em 2014 para 55% em 2021. A chegada de Scholz ao Governo alemão em nada alterou inicialmente a política externa relativamente à Rússia.
Merkel e Macron mantiveram relações diplomáticas com Putin apesar da ocupação ilegal da Crimeia, das tentativas de assassinato e de todas as violações de direitos humanos. Não foram os únicos, mas para a UE agir era preciso um sinal do eixo franco-alemão e esse sinal não se viu.
Este recuo no tempo demonstra por si só o falhanço da diplomacia europeia desde 2014 e explica também a atuação de Putin. Nos dias que antecederam o início da invasão russa, a diplomacia da UE, representada ao mais alto nível pelo Presidente Macron e o Chanceler Olaf Scholz, desdobrou-se em novos contactos com Kyiv e Moscovo para evitar a guerra. Macron tentou recuperar os fracassados acordos de Minsk e falou em “manter o diálogo e identificar elementos que possam levar à desescalada” do conflito. Scholz disse que a violação da soberania ucraniana levaria a “duras sanções”. Ainda nos dias que correm há chamadas entre os líderes das potências europeias e Putin. Mas por que não há avanços?
Não há avanços porque, conforme referiu Kati Marton, biógrafa da antiga Chanceler, “Putin está agora a testar a Europa no pós-Merkel”. E a Europa está a falhar. E é por isto que Merkel e Macron são os Chamberlains desta história e relembram a paz com honra de 1938. Tanto Macron, como Merkel, acharam que uma política de apaziguamento com Putin faria com que houvesse paz na Europa. Sigmar Gabriel, antigo Ministro dos Negócios Estrangeiros de Merkel, disse acreditar que o Nord Stream 2 simbolizaria essa paz. Não houve paz. Macron ainda vai a tempo de corrigir o seu papel e Scholz, que se mostrou hesitante de início, mostra que não será mais um Chamberlain desta história. O tempo demonstrará.
Termino recorrendo a Alfred Tennyson: “We are not now that strength which in old days/Moved earth and heaven, that which we are, we are.”. Hoje a União Europeia já não possui a força de outrora. Debate-se com várias questões a nível interno e necessita de se reinventar no mundo. Esta é a hora. Amanhã poderá ser tarde demais.
Fonte do cartoon: https://www.chappatte.com/en/images/ukraine-and-europe/