Nova Corrida Espacial: um retorno à Guerra Fria no espaço sideral


Rúben Gomes Domingos defende que, numa década em que a importância da exploração espacial voltou a aumentar, o mundo parece caminhar num retrocesso em direção a uma nova Guerra Fria, desta vez com o perigo acrescido dos interesses particulares num dos mercados económicos mais importantes do futuro.

 

            Desde o fim da Guerra Fria que, no que toca a exploração espacial, o clima entre os rivais Estados Unidos da América e Federação Russa tem sido de cooperação, nomeadamente na montagem, manutenção e tripulação da Estação Espacial Internacional. Mesmo em momentos em que as relações terrenas entre as duas potências se mostravam mais frágeis, as agências espaciais de cada uma (NASA e Roscosmos) mantiveram a cordialidade e a estratégia de trabalho conjunto. Esta cooperação internacional acreditou-se ser o futuro da exploração espacial, juntando-se aos Estados Unidos da América e à Rússia novos players públicos e privados que, juntos, dariam o próximo salto gigante para a humanidade.

            No entanto, desde o ano passado, que a evolução das relações entre os países passou a afetar também os seus programas espaciais. A Rússia ameaçou abandonar o projeto da Estação Espacial Internacional, aproximou-se da nova grande potência política e económica no planeta Terra e passou a trabalhar lado a lado com a República Popular da China nas questões do espaço.

Esse afastamento entre Estados Unidos da América e Rússia veio a agravar-se com a invasão russa à Ucrânia, tendo, por um lado, degradado as relações diplomáticas entre os países levando-as a níveis abismais e, por outro, tendo as sanções impostas pelos países do bloco ocidental à Federação Russa um efeito de abatimento na capacidade do seu programa espacial. Esta situação aumentou a dependência russa da China e, efetivamente, voltou a criar um sistema bipolar na corrida espacial, desta vez composto por Estados Unidos da América e aliados, cujo o principal se figura na ESA, agência espacial europeia, e pelo bloco Rússia-China, usando da experiência e know-how da Roscosmos e do poderio económico chinês.

Esta nova recriação dum mundo bipolar, com dois blocos ideologicamente opostos, em tempo de exploração espacial é reminiscente da Guerra Fria. Neste caso, com a agravante da entrada de novos players privados com diferentes interesses. Destes privados é importante destacar a SpaceX de Elon Musk, a Blue Origin de Jeff Bezos, e a Virgin Galactic de Richard Branson.

Estas empresas privadas, embora possam trabalhar a par com as agências nacionais, em particular com a NASA e a ESA, procuram defender os seus interesses privados. Interesses esses que, dentro do bloco capitalista, se define como o lucro. Assim, existe mais uma camada extra nesta recriação da Guerra Fria, com três blocos distintos que procuram o seu espaço no espaço.

Por outro lado, esta entrada de privados na corrida espacial traz alguns benefícios, como a redução de custos da exploração espacial, a introdução de novas tecnologias, a capacidade de atração de novos e melhores profissionais, assim como a descoberta de novas potencialidades, entre outros. Destas novas potencialidades é possível destacar a surgimento de empresas como a Made In Space que trabalha no desenvolvimento de impressoras tridimensionais para uso em ambientes de gravidade zero, a SpacePharma que procura o desenvolvimento de produtos farmacêuticos em gravidade zero para a redução dos custos dos mesmos, ou a Planet Labs que procura a observação e monitorização do planeta Terra.

No fundo, quando falamos de exploração espacial e observamos todas as potencialidades que existem e poderão estar disponíveis num futuro não tão distante para o desenvolvimento do mundo e para o avanço da humanidade, assim como dos desafios que podem surgir se não remarmos todos para o mesmo lado, torna-se imperioso repensar este regresso ao passado e à bipolarização do mundo. Não será melhor para o mundo como um todo e para cada um dos lados se olharmos para o espaço como uma oportunidade de nos unirmos enquanto humanidade? Eu acredito que sim e que, para isso, é necessário um novo tratado sobre o espaço sideral que o coloque por inteiro nas mãos do desenvolvimento científico e da manutenção da paz, impedindo, por um lado, que seja possível o seu uso para o teste e desenvolvimento de armas, sejam elas de que tipo forem e impedindo, por outro, a sua mercantilização e comercialização, colocando as empresas privadas ao serviço dos interesses públicos e impedindo-as de fazer no espaço o mesmo tipo de ações prejudiciais que têm cometido no planeta Terra.

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