Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades: o petróleo da Venezuela e as sanções dos EUA

 

Cartoon by Graeme MacKay


A invasão da Rússia à Ucrânia já tem impacto nas relações diplomáticas entre Caracas e Washington. No início deste mês, uma delegação de altos representantes dos EUA reuniu-se com o presidente venezuelano, Nicolás Maduro.


Se me perguntassem a respeito da tónica das relações diplomáticas entre os Estados Unidos e a Venezuela, nenhuma palavra poderia expressar melhor do que “arbitragem”.

Na segunda metade do século XX, as relações diplomáticas entre os dois Estados eram relativamente pacíficas sob governos democráticos na Venezuela – como os de Carlos Andrés Pérez e Rafael Caldera. No entanto, as tensões começaram a surgir após a eleição de Hugo Chávez como Presidente, em 1999.

Após a sua tomada de posse, Chávez declarou-se socialista e “anti-imperialista”, em clara referência a ser contra o governo dos Estados Unidos. As tensões aumentaram ainda mais depois que a Venezuela acusou o governo de George W. Bush de apoiar a tentativa fracassada de golpe de Estado contra Chávez, em 2002. Os EUA reagiram sempre de maneira enérgica aos ataques retóricos venezuelanos.

Com Obama, os EUA deram continuidade à política externa praticada pelo governo de Bush, embora mais contida, respondendo à Venezuela em questões pontuais como, por exemplo, quando Obama emitiu um decreto presidencial declarando que “a situação na Venezuela constitui uma ameaça inusual e extraordinária à segurança nacional e à política externa dos Estados Unidos”, na sequência da detenção de seis ex-executivos da refinaria americana CITGO em território venezuelano.

A partir de 2014, podemos constatar uma mudança no paradigma norte-americano, motivada pela eclosão da crise venezuelana, que favoreceu a intensificação dos discursos e das ações de oposição ao regime ilegítimo de Maduro, com a implementação de sanções.

Mas foi sob a Administração Trump que Washington rompeu relações diplomáticas com a Venezuela. Em 2019, o governo norte-americano reconheceu o líder da oposição Juan Guaidó como o presidente legítimo do país sul-americano, ao mesmo tempo que impunha sanções a Caracas, na tentativa de forçar a capitulação de Maduro. As medidas incluem um embargo vigente desde abril desse ano, com ênfase no setor petrolífero que é detido pelo Estado venezuelano, impedindo, assim, a Venezuela de negociar o seu petróleo – que representava, à data dos factos, 96% das receitas do país – no mercado americano.

Uma das principais consequências deste conflito diplomático foi a aproximação da Venezuela à Rússia, que atualmente é o principal apoio externo do regime de Maduro. Desde então, Moscovo apoiou monetariamente o líder chavista com bilhões de dólares em acordos comerciais e linhas de crédito. Atualmente, a Rússia é o segundo maior parceiro empresarial e credor da Venezuela, ficando atrás da China.

Com a atual ofensiva russa na Ucrânia, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, suspendeu a importação de petróleo da Rússia em mais uma sanção contra a decisão de Putin de invadir a Ucrânia. Após esta decisão, a administração americana enviou a Caracas uma delegação com “o propósito de discutir uma variedade de temas que incluem certamente energia, segurança energética”, declarou a Secretária de Imprensa da Casa Branca do governo de Joe Biden, Jen Psaki. A reunião foi também confirmada pelo próprio Nicolás Maduro, que a descreveu como “respeitosa, cordial e diplomática”, sem entrar em detalhes sobre os temas abordados. As duas horas da reunião despertaram um sentimento de afinidade e de cordialidade entre as duas partes, apontando para uma reaproximação entre as duas nações.

Se pensássemos que este encontro indicaria para um crescimento de animosidade entre a Venezuela e a velha aliada Rússia, tiraríamos conclusões precipitadas e ilações impensadas, porque segundo o embaixador russo na Venezuela, “a visita da delegação dos EUA a Caracas é uma admissão das políticas equivocadas de Washington e um reconhecimento de Nicolás Maduro como Presidente da Venezuela”. Também a propósito de uma eventual alteração das relações entre a Venezuela e a Rússia, o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Venezuela, Félix Plasencia, afirmou que “somos aliados leais do governo russo”.

Uma coisa é certa: a concretizar-se esta reaproximação, o povo venezuelano poderá finalmente livrar-se da hiperinflação, da escassez de alimentos e de uma crise de saúde pública em que está mergulhado nestes últimos anos sob as mãos do regime socialista de Maduro. Não podemos esquecer que também a incoerência da política externa da administração americana poderá trazer ventos de esperança para o sofrido povo venezuelano.


Por João Pedro Afonso

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