Macedónia do Norte, o sucesso futebolístico como ferramenta de Soft Power e afirmação no espetro internacional

 



Num período de menor conturbação social, a possibilidade de a seleção da Macedónia do Norte conseguir assegurar a qualificação para o campeonato do mundo do Qatar pareceu ser uma demonstração de soft power eficaz, tanto na unificação do povo, como na afirmação do país a nível internacional.

Neste artigo António Miguel Carvalho procura analisar o impacto que o futebol pode ter na esfera de influência de um país com uma história tão recente e conturbada.



Para entender esta disputa de contornos tão singulares na Europa é preciso remontar à Macedónia Antiga, terra que viu nascer Alexandre o Grande. Alexandre foi um guerreiro singular, formou um enorme império que ia do sudeste da Europa até a Índia. O facto de ter sido educado por Aristóteles e de ter uma grande ligação e admiração pela cultura grega pode explicar em grande parte a estreita ligação entre macedónios e gregos sendo que, muitos destes últimos classificam o antigo imperador macedónio como "o maior grego de todos os tempos".

Após a sua morte em 323 a.C., o império entrou em colapso e sofreu longos períodos de conturbação. Depois da Primeira Guerra Mundial a Grécia herdou a maior parte desse território, incluindo a sua capital multiétnica Tessalónica. Essa região, a cargo dos gregos, passou a denominar-se Macedónia. Após a Segunda Guerra os comunistas fundaram a então Jugoslávia, que fazia fronteira com a Grécia. O seu estado mais a sul chamava-se República da Macedónia, e foi com esse mesmo nome que o país proclamou a sua independência, no ano de 1991.

Segundo muitos especialistas, a verdadeira disputa começou logo após o fim da Guerra Fria, já que a Grécia acreditava que o termo Macedónia ofendia os seus interesses económicos e fazia também reivindicações territoriais, especialmente porque a região geográfica da Macedónia se estende por três Estados: a própria República da Macedónia, a Grécia e a Bulgária.

No início do século 20, em Skopje, o movimento nacionalista VMRO chegou a expressar desejos de unir toda a Macedónia, incluindo a cidade de Tessalónica, território grego. Naquela época o nacionalismo já estava amplamente difundido na região

São estas tensões internas e externas, fomentadas pela constante rivalidade entre a minoria albanesa residente no país e os nacionalistas locais, que tentaram também a todo o custo distanciar-se da esfera de influência grega de modo a contornar todas as tensões histórias e geográficas que há tantos anos assombram o estado independente da Macedónia do Norte (denominação aprovada no acordo assinado no ano de 2018 pelo primeiro ministro grego, Alexis Tsipras, e o seu homólogo macedónio, Zoran Zaev.

O sonho de fazer parte da União Europeia, à qual o país é candidato desde Dezembro de 2005, e da OTAN, cuja adesão também não foi aceite até ao momento, nunca foi mantido em segredo, estes são dois dos grandes objetivos do país uma vez que a sua concretização poderia ser sinónimo da afirmação da soberania nacional. Apesar de todos os esforços para a sua europeização existem ainda grandes fações de grupos que se opõe, sobretudo a nível externo, sendo os maiores opositores a Grécia e a Bulgária, segundo os quais a chegada a um consenso é extremamente difícil devido às sobreposições históricas e geográficas. A ascensão de líderes nacionalistas na zona dos Balcãs ocidentais parece não ajudar em nada o avanço de qualquer um destes processos.

Após diversas tentativas de execução das mais diversas técnicas de soft power como um meio de se afirmar a nível internacional, talvez por não ser um país militarmente desenvolvido e com poucos meios a seu dispor, a Macedónia do Norte parece ter encontrado no futebol uma das maiores armas políticas. A real possibilidade de se qualificar para o campeonato do mundo de 2022 no Qatar acrescida ao facto de ter eliminado a atual campeã da Europa e toda poderosa Itália, só tendo perdido com Portugal no último playoff de acesso à competição, parecem ter dado ao país um destaque e visibilidade internacional há muito desejados. Nas últimas semanas, o nome do país andou pelas bocas do mundo e fez manchete em muitos dos jornais mundiais, sendo de destacar que muitos desses meios de informação não eram sequer desportivos. É ainda de destacar o número estrelas que atuam em grandes competições nacionais Europeias: o já retirado Goran Pandev, do Génova de Itália, Elif Elmas, do Nápoles, Enis Bardhi, do Levante de Espanha e Stole Dimitrievski que atualmente joga no Rayo Vallecano, também espanhol. Estes são alguns dos nomes mais sonantes da atual seleção e dos grandes responsáveis pelo sucesso da armada nacional que, apesar de toda a qualidade individual reconhecida, se pauta sobretudo pela garra, união e espírito de sacrifício de todo o coletivo. Sempre que entram em campo, estes jogadores parecem carregar todo o peso do símbolo que envergam nas suas camisolas, símbolo esse cuja aceitação foi conseguida a grande custo.

Nós portugueses sabemos melhor do que ninguém as vantagens de ter um grande jogador e todo os benefícios que pode trazer a um país. Ao longo das últimas duas décadas Cristiano Ronaldo conseguiu dar uma visibilidade estrondosa a Portugal, dando-lhe reconhecimento e favorecendo inúmeros setores, sobretudo o do turismo. É verdade que na seleção da Macedónia do Norte não existe um jogador deste nível, no entanto os recentes feitos da equipa prometem ter um resultado extremamente benéfico para o país e, apesar do sucesso futebolístico não ter sido uma aposta verdadeiramente consciente e calculista, está a demonstrar ser eficaz. Esta é sem sombra de dúvidas uma das maiores ferramentas de soft power do país na atualidade, resta esperar para ver os efeitos que terá a longo prazo, sendo que para já parecem ser significativamente benéficos na luta pela afirmação de um país há muito esquecido nos confins da Europa.

 

António Miguel Carvalho, 221454.

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