Isolacionismo ou Multilateralismo? Dois Caminhos em Disputa nas Presidenciais Brasileiras
As eleições presidenciais brasileiras, marcadas para 22 de outubro deste ano, serão, indicam as pesquisas, altamente bipolarizadas, entre, por um lado, Jair Bolsonaro, incumbente, e, por outro, Lula da Silva, ex-Presidente do país entre os anos de 2003 e 2011. No presente artigo, João Santos argumenta que o ato eleitoral terá um grande impacto na Política Externa do Brasil, que poderá permanecer na lógica isolacionista adotada a partir de 2018, ou, por outro lado, retornar aos tempos pré “bolsonaristas”, quando era marcada pelo bilateralismo, pelo regionalismo e pelo multilateralismo.
A partir do momento em que Lula da Silva recuperou os direitos políticos,
começaram a surgir no Brasil rumores relativos a uma possível candidatura à presidência da República. Se numa fase prematura, negou-o,
em maio de 2021 assumiu, em entrevista à Paris Match, que seria candidato a Chefe de Estado. Desde esse momento que sucessivas sondagens têm demonstrado
o claro favoritismo do ex-Presidente face a Bolsonaro (a mais recente pesquisa atribui a Lula 45% das intenções de voto e 25% Bolsonaro).
Tudo indica, então, que não há espaço para uma via alternativa. O próximo
Presidente da República será Lula da Silva ou Jair Bolsonaro. Mas, que impacto
terá o ato eleitoral na definição da política externa do país?
A Política Externa protagonizada pelo ex-Presidente Lula da
Silva foi marcada pela denominada autonomia de diversificação,
por ter assentado: num reforço da cooperação internacional sul-sul;
na aproximação do Brasil a novos atores globais, como a China e a Índia;
e num reforço do regionalismo através da Criação da Comunidade Sul-Americana de Nações (CASA).
Simultaneamente, o país adotou uma estratégia multilateralista,
através da “diplomacia presidencial”, com aproximações à Organização Mundial do
Comércio e à Organização das Nações Unidas.
A partir de 2018, com a eleição de Jair Bolsonaro, a realidade mudou drasticamente, também no plano da Política Externa. O Presidente adotou uma postura fortemente ideológica,
ao invés de pragmática, e os seus apoios internos marcam a agenda do país
também no plano externo.
O apoio da comunidade evangélica levou o Brasil a tomar posições altamente conservadoras junto do Conselho dos Direitos Humanos das Nações Unidas. O Lobby da indústria
madeireira fez com que a deflorestação na Amazónia atingisse níveis históricos e
obrigou a que o país ignorasse a questão das alterações climáticas. A postura antiglobalista adotada pelos teóricos do Presidente deitou por terra anos de
aproximações a organizações multilaterais, como as Nações Unidades..
Simultaneamente, Bolsonaro colocou a sua ideologia à frente dos interesses do
país e gerou crises diplomáticas com países como China, Alemanha, França e Venezuela. A própria relação entre vizinhos ficou fortemente abalada. O caso da Argentina é paradigmático: aquando das eleições presidenciais argentinas, Bolsonaro
apoiou abertamente Maurício Marcri, incumbente. Este acabou por perder e o
vencedor foi mesmo Alberto Fernández. Pela primeira vez desde a redemocratização,
o Brasil não compareceu à tomada de posse do seu homólogo argentino. Bolsonaro
chegou ainda a afirmar que o povo argentino havia “escolhido mal”.
Em suma, e como referem Miriam Saraiva e Felipe Albuquerque, “A política externa do governo Bolsonaro passou a ser um mero campo para exercício ideológico, rompendo com as premissas de elementares protocolos diplomáticos, isolando o Brasil do Sistema Internacional”.
Feita a análise da Política Externa adotada quer por Lula da
Silva como por Jair Bolsonaro, a compreensão das viagens realizadas pelos
pré-candidatos à presidência da República também permitem observar aquelas que
serão as parcerias a adotar numa futura solução governativa. Se Bolsonaro visitou recentemente um conjunto de países árabes, onde se destacam os Emirados Árabes
Unidos, Lula rumou à Europa,
onde inclusive foi recebido na Alemanha, na Bélgica, em França e em Espanha.
Por fim, o ex-Presidente discursou no Parlamento Europeu, tendo sito aplaudido
de pé. As alianças estão montadas e permitem comprovar o argumento
defendido: Jair Bolsonaro continuará a preferir relacionar-se com países mais
próximos ideologicamente, ainda que isso custe o isolamento internacional do
Brasil num grande conjunto de questões (climáticas, políticas e humanitárias) e
implique aproximações a Nações marcadas por claras violações aos Direitos
Humanos. Já Lula deverá apostar em reforçar as alianças do Brasil com a União
Europeia e com a China, tentando recuperar a confiança internacional no país
perdida durante o mandato de Jair Bolsonaro.
Assim, o ano de 2022 será decisivo para a Política Externa brasileira: se Bolsonaro permanecer no poder, o país continuará a adotar uma postura isolacionista e fortemente ideológica; por outro lado, se o ex-Presidente Lula da Silva vencer as eleições, é esperado que o país regresse a uma visão pragmática, defensora do bilateralismo, do regionalismo e do multilateralismo e que terá como missão fundamental recuperar a boa imagem internacional do país, resultante da gestão Bolsonaro. Resta saber qual será a intenção do povo do Brasil, se quererão manter-se “orgulhosamente sós” ou se pretenderão aplicar o dito brasileiro de que “é impossível ser feliz sozinho”.
Fonte do cartoon: https://www.instagram.com/p/CVs6aBirrPm/
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