Índia, o esquecido gigante asiático e a chave europeia de contenção à China



Neste artigo, Carlos Sousa Cordeiro expõe uma das grandes e esquecidas alternativas que o Ocidente pode recorrer para conter o gigante chinês, a Índia, a maior democracia do mundo. 

Nos últimos tempos, observamos a ascensão da China como superpotência, uma demonstração de um mundo cada vez mais multipolarizado e não unipolarizado como os EUA, sonhavam após a sua vitória na guerra fria com a queda drástica da URSS e como superpotência a China tem demonstrado aos poucos as suas garras, de um modo peculiar, de um modo económico e financeiro. 

Durante séculos as nações ocidentais investiram e alimentaram o gigante chinês, elevaram a sua indústria e tornaram a China a grande fabrica do planeta, mas isso trouxe as suas consequências, pois a China cresceu e fortaleceu-se e não é agora apenas uma nação dependente do ocidente como o Ocidente é agora também quase numa exclusividade dependente da China. Com as ambições chinesas a serem cada vez mais claras, colocando até mesmo democracias orientais e aliadas ao Ocidente em perigo, como o Japão, Coreia do Sul e Taiwan ou até mesmo ajudando no desvirtuamento de destinos de países como o Nepal com a implementação de regimes maoistas mesmo que indiretamente ou através da famosa armadilha chinesa, onde países como o Sri Lanka, Grécia e Montenegro entre outros já caíram.

Além disso verifica-se também um aumento de compras de grandes e importantes ativos ou infraestruturas estatais e privadas no ocidente por empresas ou indivíduos apoiados ou sustentados pelo regime chinês.  

A submissão à um regime autoritário, de modo involuntário é um dos cenários que se pode estar a aproximar e para isso os países europeus precisam mudar a sua direção e esta direção está mais a sul, concretamente no Sul da Ásia, região controlada (apesar das tentativas chinesas) pela Índia e é esta a nação que se deverá contar para conter o avanço da influência e económica chinesa.  

Inclusive reforça também a força dos regimes democráticos e livres, sendo a Índia a maior democracia do mundo e o Ocidente as democracias mais maduras e experientes, a cooperação entre elas é essencial, fundamental e ideal. Além mais, é importante esta interação entre democracias, permitindo a Índia adaptar-se a questões “já resolvidas” no Ocidente como os direitos e educação das mulheres, cujo sistema de castas, mesmo ilegal, tem sido dos principais dificultadores dessa questão. 

Durante os últimos tempos tem sido esta a posição da UE à sua maneira, apesar de se passar por despercebida, por exemplo no ano de 2021 ocorreu em maio a Cimeira UE-India, ocorrendo inclusive durante a presidência semestral europeia por parte de Portugal, além disso outras ações não tanto faladas também tem sido trabalhadas. 

A Índia tem sido bastante menosprezada, desvalorizada e também alvo de estereótipos e conceções, muitas de origem ocidental, que denigram a imagem do Estado e o tornam pouco atrativo, além disso a ascensão da China tem ofuscado imenso a India, que é uma economia igualmente crescente e vibrante (inclusive esta previsto que a económica indiana seja a que mais cresça este ano), porém é um país muito mais pacífico e não recebe a atenção certa relativamente ao seu tamanho e verdadeiro impacto no mundo.

É um estado que deveria ser valorizado pela sua população, intelecto, economia, história civilizacional, desenvolvimento e tolerância e convivência entre vários povos e religiões desde a sua génese como civilização antiga até agora como republica federal e democrática.

A Índia e a China juntas fazem quase 40% da população mundial, a China com 1448 milhões de habitantes e a India com 1403 milhões de habitantes (ver dimensão demonstrada no gráfico abaixo). Ambas com económicas vibrantes apesar do longo avanço e desenvolvimento da económica chinesa e na concretização de objetivos por parte de Pequim, cujo um Estado forte e centralizado facilita, verificando-se o oposto com a Índia, um estado democrático pode ter os seus objetivos e decisões mais dificilmente concretizados, mas isso é parte do próprio sistema democrático, inclusive há quem afirme que a China tenha uma década de avanço em relação a Índia, mas também pode ser visto como uma década de avanço à queda. 

 

Gráfico 1 – Countries by Population Size


 

Fonte: https://www.visualcapitalist.com/population-every-country-bubble/

 

A Aposta na Índia livraria a Europa da dependência de um único estado, a China e permitiria uma diversificação económica, nomeadamente nos setores tecnológicos e informáticos, pudendo seguir o exemplo dos EUA, que tem uma influência gigantesca da Índia em regiões como Silicon Valley, o que permitiu um crescimento e reconhecimento de que hoje falamos. 

Além disso para conter os interesses económicos da China, um peso do seu tamanho é ideal para o conter e contrapor. Os EUA já seguem essa visão, algo salientado durante a presidência Trump e até mesmo com Biden, apesar de que agora com mais incertezas, até mesmo a Rússia de Putin tem seguido uma aproximação e atenção especial à Índia, ambos os estados tem uma relação histórica e amigável.  

Outros estados como a Coreia do Sul e varias empresas tem prestado atenção a esta alternativa viável, é exemplo disso a Samsung, Apple e entre outras, apesar de muitos estados europeus não se terem apercebido desta alternativa ainda, os seus privados têm antecipado esta atenção e alternativa, existem cerca de seis mil empresas europeias a operar na índia como a Siemens, Bosch e a Henkel, além disso a extensa mão de obra qualificada disponível e as mil e seiscentas multinacionais com 8,2 milhões de investigadores e auxiliares e uma preparação científica e técnica e disponibilidade notável.

Contar com a Índia para conter a China, não se baseia apenas na economia e na troca de informação democráticas, mas também no humanitarismo, como foi verificável durante os picos mundiais da pandemia covid-19, criando autênticos corredores de fornecimento de saúde, destacamento de equipas médicas e uma assistência incansável a países com mais dificuldades como as ilhas Maurícia, Comores e Madagáscar mas até mesmo à estados com altos rendimentos como o Kuwait, partilhando junto com a Europa uma visão de assistência, ajuda e desenvolvimento assim como de resolução de crises, sejam estas de saúde como políticas como foi visível na guerra civil do Sri Lanka (1983 – 2009) e na tentativa de golpe de estado nas Maldivas.  

Os interesses europeus e os seus objetivos de paz e desenvolvimento encontram-se melhor entregues numa parceria com a Índia, um Estado com a mesma visão e cujos objetivos e interesses podem convergir com os europeus, criando uma nova oportunidade e até mesmo paradigma e tirando à China um dos seus maiores e mais atraentes mercados, claro que esta não ficará de braços cruzados e fará de tudo para impedir à India, mesmo que seja a força como tem demonstrado com vários exercícios militares e com violações da fronteira acordada entre os dois países e com a fronteira entre a China e o Butão (Protetorado Indiano nos Himalaias) e aumentar a sua pressão e influência sobre a Europa, para que esta se discipline e não mude de parceiro.

A Índia é a chave para conter a China, o gigante certo que se deve apostar para uma diversificação económica e até mesmo como forma de manutenção dos regimes democráticos a nível internacional.

Será interessante observar as dinâmicas entre estes três players de grande relevo e de como estas irão fluir, também tendo em consideração as tensões entre a India e a China e as relações da Índia e da China com a Rússia.

Carlos Cordeiro, aluno 227718, 17 de Março de 2022

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