Guerra energética na Europa. Dos antigos acordos comerciais ao futuro fio condutor da política externa dos países da UE.



Ilustração: Geetanjali, DailyO

 

            A 24 de Fevereiro de 2022 voltámos a despertar para a possibilidade de uma realidade que nos parecia longínqua, uma Europa em guerra não só no sentido literal da palavra, mas sobretudo uma Europa em guerra comercial. Neste artigo, António Miguel Carvalho defende a urgência na toma de medidas que visem uma futura autossuficiência no que à produção de energia dos países da união Europeia diz respeito.


Se em Maio de 1945 o continente europeu tentava encontrar soluções para a forma como se pretendia coordenar económica e geopoliticamente, a gestão pós-conflito dos grandes líderes europeus de meados do século XX pode e deve ser tida em conta nos dias de hoje, sendo que existe um certo paralelismo com a realidade europeia atual. 

Se para já uma reconciliação entre o mundo ocidental e a Federação Russa parece algo inconcebível, já existe a consciência por parte dos líderes e da população em geral que há que ter atenção à forma como se pretende gerir este corte de relações a médio/longo prazo. O problema não é só de índole económica, é também um problema social e de reintegração da comunidade russa nas sociedades democráticas ocidentais.

A Rússia sempre foi um território de grande indefinição geopolítica, se por um lado a sua corrente ideológica não encaixa nos ideais democráticos ocidentais, por outro, também parece um país demasiado distante do modo de vida asiático, podendo quase afirmar-se que neste momento a Federação Russa é quase como que uma peça de um puzzle que não parece ter onde encaixar. Neste momento há quem afirme que a Europa falhou redondamente nas tentativas de, ao longo de décadas, estreitar laços com o Kremlin, sendo que é evidente que uma das formas de combate a este problema foi o estabelecimento de múltiplos acordos comercias em grande parte chefiados por Angela Merkel.  É fácil apontar o dedo para tremenda ineficácia, no entanto, o verdadeiro desafio que se coloca e que deve estar no centro da mesa de debate é definir como é que serão as relações entre estes dois eixos daqui por diante. O isolar do povo russo a longo prazo não parece ser uma opção viável e se as sanções impostas pelos países da NATO vão ser sentidas na pele dos oligarcas russos quem mais irá sofrer com estas medidas é o povo. A pobreza extrema conduz à violência e irracionalidade, daí o risco de o jogo poder virar a favor de Putin, que certamente irá tirar proveito da situação para aumentar o ódio ao ocidente e sentimentos nacionalistas radicais, quase que fazendo lembrar a ascensão dois ideais nazis na Alemanha de Hitler.

Quer queiramos quer não, atualmente, a economia mundial está extremamente globalizada e como dizia René Descartes, “não existem métodos fáceis para resolver problemas difíceis”. Nos tempos que correm, a Europa enfrenta uma das maiores crises com que se deparou nas últimas décadas: a da dependência energética. 

É desde logo evidente que esta é uma crise à larga escala cuja tendência tem sido para o agravamento da dependência de fornecimento de energia. As fontes de produção energética na UE são altamente diversificadas e vão desde a energia nuclear, onde a França é o grande protagonista, até às fontes renováveis que são uma das grandes apostas dos alemães. Contudo, os combustíveis fósseis, o petróleo e o gás natural merecem também ênfase sendo que, no seu conjunto, refletem aproximadamente uma fatia de 40% do bolo total. No entanto, o grande problema da UE não está na diversificação de fontes energéticas, mas sim na falta de autonomia no que à produção de energia diz respeito. 

gráfico 1, referente a um artigo publicado em 2019 no jornal público espelha bem o grave problema com que os líderes dos países da UE se deparam.


 

Gráfico 1 Evolução da taxa de dependência energética dos estados membros


 

A análise não é difícil, analiticamente falando rapidamente concluímos que a taxa de dependência energética nos estados membros da União Europeia não mostrou diferenças significativas entre 2000 e 2017. Em termos práticos, o mais importante de salientar é que, ao fazer a média europeia se verifica que o aumento dessa dependência foi quase de 10 pontos percentuais, notícias nada animadoras para os países europeus, mas sobretudo para as famílias que mais cedo ou mais tarde irão sentir o peso da inércia e falta de soluções europeias ao longo das últimas duas décadas.

Se por um lado o consumo de gás natural tem vindo a aumentar progressivamente, por outro o leque de países exportadores deste recurso com os quais a maior parte dos países da UE faz negócio, apesar de não ser incrivelmente reduzido, não é significativo porque os acordos comerciais têm, em grande parte dos casos, a Rússia como principal ator. A ponderação de países como a Alemanha e Itália na altura de implementar sanções não foi inocente, apesar do peso da opinião pública, estes gigantes europeus viram-se encurralados num dilema, fruto dessa preocupante dependência do gás natural russo. Podemos culpar Putin e os seus atos inconsequentes, mas há que assumir responsabilidades e a falta de dinamismo europeu na procura da sua autossuficiência energética tem de ser posta em causa. A produção de energia devia ter sido um dos focos principais na definição das políticas externas europeias e não podemos nem devemos deixar de ser críticos, para que não voltemos a cair nos mesmos erros do passado. 

Para já parece inevitável uma mudança drástica na condução dessa política externa dos países da UE. A imposição destas sanções à Rússia vai polarizar ainda mais a dicotomia entre o Ocidente e o Kremlin, no entanto quando se fecha uma porta abre-se uma janela. Se por um lado o estabelecimento de acordos comerciais com outros países exportadores de gás sobretudo do norte de África e os EUA parece ser a principal estratégia de contenção do dano, por outro a UE tem aqui o alavancar que tanto precisava para se consciencializar que, a longo prazo, a solução deve passar por desenvolver infraestruturas e meios que lhe permitam ser auto suficiente no que à produção da maior parte da sua energia diz respeito.

Se olharmos para dentro e analisarmos a situação portuguesa relativamente à importação de gás natural os danos também não parecem ser tão preocupantes como noutros países, apesar das repercussões deste evento prometerem fazer sentir-se a nível global sendo o aumento do preço do barril do petróleo uma das consequências que mais preocupa os analistas. A Nigéria é o grande fornecedor de Portugal relativamente ao gás natural, seguindo-se os EUA e a Rússia, sendo que esta última só representa 8% das importações, apesar da dependência de gás russo também ter aumentado significativamente nos últimos dois anos, tal como mostra o gráfico 2.


 


No entanto esta não deixa de ser uma má notícia sobretudo para indústrias como a da produção de cortiça e vinho, muito apreciadas pelos russos. É inocente pensar que as sanções económicas aplicadas à Rússia não irão afetar a economia europeia, que irá ser também ela uma vítima das suas próprias ações, contudo a maior questão que se coloca é se os países europeus irão conseguir num futuro próximo ser autossuficientes na produção da sua própria energia de modo a satisfazer as necessidades das suas populações e indústria, como é que o irão fazer, ou se conseguirão pelo menos arranjar alternativas viáveis.

A diplomacia europeia e a capacidade de executar políticas externas viáveis e eficazes está a ser posta à prova, que não nos desiluda.



António Miguel Carvalho, nº 221454, 17 Março de 2022.

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