Da unipolaridade à multipolaridade: Como é que a Ordem Internacional se alterou nos últimos 20 anos?
Diogo Ferreira Leite analisa as alterações na Ordem Mundial desde a viragem do século e como é que a China e a Rússia começaram a disputar a hegemonia americana no palco internacional.
Com a queda do
Muro de Berlim e o colapso do Bloco Soviético no final dos anos 80 e início dos
anos 90 fora anunciada uma nova era. Um novo começo. Um “fim da história” nas palavras de Francis Fukuyama.
Pela primeira
na história do mundo globalizado tínhamos um sistema de nações dominado pela
hegemonia de um só país – pelos Estados Unidos da América. Um mundo unipolar. O
período que decorreu dos anos 90 até a meados da década de 2010 ficou conhecido para alguns
especialistas na área das Relações Internacionais como “Hegemonia Liberal”. Um período onde a influencia
militar, política e económica dos EUA se fez sentir de forma incontestável por
todo o mundo.
Seguindo uma visão “Wilsoniana” do papel da
América no mundo os EUA procuraram redesenhar o mapa mundial fomentando a
construção de novas democracias liberais, desenhadas seguindo a imagem
americana – primeiro nas fronteias do antigo Bloco Soviético, depois nas
antigas colónias europeias e até no próprio Médio Oriente.
Dificilmente
qualquer analista consegue apontar o momento exato em que esta alteração ocorreu.
O processo foi demorado e ao longo de vários anos. As movimentações nos eixos
do poder ocorreram por baixo do nariz das potências do Ocidente.
Ocorreram num tempo em que parecia que cada vez mais se tinha atingido um novo aperfeiçoamento no conflito geopolítico onde os principais rivais da Europa e dos EUA já não eram Estados.
Não tinham bandeira, hino ou nacionalidade. Desde 2001 a 2014 todos os recursos da
OTAN foram dedicados a combater o terrorismo internacional.
Em março de
2008 a Cimeira da Nato de Bucareste terminou de forma notória. Os altos representantes da Aliança Atlântica já se tinham comprometido a um plano conjunto para a integração da Geórgia e da Ucrânia na OTAN. Com meras palavras,
sem qualquer suporte jurídico, a OTAN forçou o seu adversário ancestral a acelerar
o seu processo de reconstrução militar. Uma linha vermelha tinha sido cruzada. As
progressivas expansões da OTAN não poderiam continuar. Aos olhos do Kremlin a
entrada da Ucrânia ou da Geórgia na Aliança corresponde a um risco de enorme
magnitude para a sua segurança.
Em agosto de 2008 as forças da Federação Russa invadiram a Geórgia. A guerra foi rápida, durando
cerca de 12 dias. Desde então as relações entre os EUA e a Rússia tinham sido
para sempre lesadas. Mesmo com o arrefecimento diplomático durante a Presidência de Barack Obama nos EUA e Dmitry Medvedev na Rússia as relações amigáveis que
existiram durante os anos de George Bush dificilmente se recuperariam.
Com a anexação
da Crimeia em 2014, o início do conflito no Donbass e as iniciativas russas na
Síria a transição fora consolidada. A Rússia tornara-se novamente num ator
relevante no palco internacional.
Foi também precisamente em 2008 que muitos analistas e economistas se começaram a aperceber do verdadeiro potencial da China. A mesma China que em tempos áureos fora um polo de poder económico
mundial. Após o seu desmembramento territorial e industrial pelos Impérios Europeus
do século XX e a devastação causada pela invasão japonesa nos anos 30/40, a penosa
Guerra Civil Chinesa e os anos do Maoismo acreditou-se que a China dificilmente
se poderia tornar num ator internacional relevante novamente.
Com as suas
diversas iniciativas económicas como a One Belt One Road Iniciative e os
seus diversos projetos por todo o mundo (em particular no Continente Africano) a
Républica Popular da China está a tornar-se num polo económico mundial vital. Cultivando
a sua influência através de grandes projetos, obras publicas e investimentos em
empresas estrangeiras, optando assim por uma estratégia assente não na política
do “strong arm” mas sim na criação de relações de dependência económica com
outros países.
Simultaneamente
e de forma progressiva a China está a reforçar a sua presença militar fora das suas fronteiras,
através da construção de bases navais e militares no Mar do Sul da China e no Djibuti
(na África Oriental). A China também tem vindo a aumentar a pressão sob Taiwan,
o último resquício das forças nacionalistas de Chiang Kai-shek – com constantes ameaças de uma possível anexação e bloqueando qualquer tentativa por parte do Ocidente de apoiar Taiwan de forma mais intensa.
Com o renascer
russo e a ascensão chinesa entramos numa nova era marcada por um mundo multipolar
– um mundo com vários polos de poder internacional. Os decisores que compõem
todo o aparato da Política Externa americana vão ser forçados a reconhecer esta
realidade. A reconhecer que todas as ações dos EUA no palco externo vão ter de
ser enquadradas no âmbito deste mundo multipolar. Onde as esferas de influência
da China (no Sudoeste Asiático, em África e no Indo-Pacifico) e da Rússia (nas
antigas fronteiras da URSS, no Médio Oriente e na Ásia Central) vão ter de ser
respeitadas. Se não o fizerem a humanidade corre o risco sério de enfrentar um
novo conflito mundial num futuro próximo.
Esperemos que a atual situação no Leste da Europa não seja um prelúdio para algo muito maior...
Diogo Ferreira
Leite, nº227689, 17 de março de 2022
Uma analise interessantíssima sobre a reviravolta que está à espreita na ordem Mundial!
ResponderEliminarMais uma vez, o Ocidente a dormir. Bem lembrado, Diogo!
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