Conflito armado Rússia-Ucrânia: consequências no continente africano
Ana Maria Lourenço analisa o impacto da ofensiva russa na Ucrânia, abordando quais são os impactos positivos e negativos no continente africano.
A
invasão russa no território ucraniano, no dia 24 de fevereiro, evidenciou
diversas preocupações económicas e de segurança global. A rápida evolução da
guerra na Ucrânia e a consequente crise humanitária constituirão grandes
dificuldades para os países envolvidos direta e indiretamente. Apesar do
continente africano estar geograficamente distante de ambas as regiões, o mesmo
acaba por ser afetado, levantando
questões sobre a segurança alimentar, produção agrícola e a inclusão de países
com reservas de gás natural na equação geopolítica devido às sanções. Os efeitos da guerra
podem
afetar tanto a economia
como os cidadãos africanos mais vulneráveis – embora ambas estejam profundamente
interligadas.
Com a eclosão da guerra,
os EUA e os países europeus decretaram várias
sanções contra a Rússia, nomeadamente ao
nível da compra de gás. Como consequência, os países do Médio Oriente e da
África estão a emergir como uma fonte alternativa para a Europa, que
tenta diversificar o seu abastecimento de gás natural e reduzir a dependência
para com a Rússia.
Devido à situação atual e às sanções
implementadas pelos Estados Unidos e pela União Europeia, alguns países
exportadores de petróleo da região africana encontram-se numa posição favorável
em termos de exportação de gás natural e matérias-primas. A Nigéria, o Níger e
a Argélia encontram-se numa situação privilegiada, sendo que a Nigéria encontra-se
no 11.º
lugar em termos de reservas de gás natural e a Argélia no 9.º
lugar, segundo o ranking do WorldoMeter.
No dia 16 de fevereiro, a Nigéria, o Níger e a Argélia – que estão na rota do
Gasoduto Transaariano – assinaram a ‘Declaração de Niamey’ durante a terceira
edição do Fórum de Mineração e Petróleo das Comunidades Económicas dos Estados
da África Ocidental (CEDEAO). Este acordo prevê a retomada do projeto de
gasoduto Transaariano, através da construção de um gasoduto com
4,128 quilómetros, que ligará Warri, na Nigéria, a Hassi R’Mel, na Argélia,
passando pelo Níger.
Após
a sua conclusão, o
gasoduto transportará 30 bilhões de metros cúbicos de gás natural anualmente, dos
três países para o mercado europeu. Este projeto permitirá que a Europa explore
diretamente as reservas de gás natural da Nigéria, Níger e Argélia, diversificando a sua
oferta energética, como também impulsionará o setor da energia e da economia. Para além do mais, este gasoduto constitui uma mais-valia para
Níger, pois será capaz de monitorizar as suas próprias reservas de gás –
estimadas em 34 bilhões de metros cúbicos -, introduzirá uma indústria
petroquímica, através da produção de subprodutos como a amónia, uréia e
fertilizantes, traduzindo-se numa mais-valia para a agricultura do país.
Todavia, o custo do transporte provavelmente aumentará para todas as pessoas do continente africano, constituindo um efeito indireto sobre os preços de quase todos os outros produtos. Alguns economistas alertam que a guerra na Ucrânia pode aumentar ainda mais os preços do petróleo e aumentar a inflação na África. Segundo Abdul-Ganiyu Garba, professor do Departamento de Economia da Universidade Ahmadu Bello, na Nigéria, é claro que a guerra irá afetar o preço do petróleo bruto, mas a receita também poderá aumentar. No entanto, visto que, o investimento em petróleo é transferido para as empresas multinacionais, é mais provável que elas obtenham receitas maiores do que o próprio continente. Segundo o economicista, o aumento nos preços do petróleo bruto significa que a inflação crescerá globalmente e, posteriormente o custo das importações africanas também aumentará.
Tanto a Ucrânia como a Rússia são importantes exportadores de grãos para a África: em 2020, os países africanos importaram produtos agrícolas no valor de 4 bilhões de euros da Rússia, sendo que o trigo correspondeu a 90% dessas importações. Da mesma forma, a Ucrânia exportou produtos agrícolas no valor de 2,9 bilhões de euros para a África em 2020: o trigo representa 48%, o milho 31% e o óleo de girassol, cevada e soja representaram o restante. Charlie Robertson, Economista Chefe da Renaissance Capital, acredita que a ofensiva russa na Ucrânia afetará severamente o continente africano, devido à sua dependência da importação de alimentos europeus e o consequente aumento do preço do pão. Consequentemente, África torna-se mais dependente e vulnerável, pois os preços do milho aumentaram para 21%, o trigo 35% e a soja 20%, tornando-se insuportável para uma população empobrecida.
Torna-se difícil prever se o conflito armado entre os dois países beneficiará ou prejudicará o continente africano. Por um lado, alguns países encontram-se beneficiados devido às suas reservas de gás natural e de matérias primas mas, sob outra perspetiva, o prolongamento da guerra afetará as cadeias de abastecimento africano, constrangendo a população do continente.
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