Agradar a Gregos e a Troianos: Turquia, o país que defende o povo ucraniano, mas dependente dos recursos russos.


Sofia Pinguinha analisa o papel e as repercussões que o conflito armado Ucrânia/Rússia pode ter nas relações externas turcas.

 

Se analisarmos a história, facilmente compreendemos que o território turco, enquanto Estado Euro-Asiático, apresenta condicionantes geográficas que o tornam atrativo do ponto de vista estratégico. A sua posição permite-lhe explorar relações no cenário internacional. Fruto dos vários conflitos dos quais fez parte, a Turquia é parte integrante dos três sistemas (europeu, médio-oriental e asiático) que, certamente, influenciam a sua política externa. Mantém relações estreitas com os seus países vizinhos, mas não se fica por aqui. É também Estado integrante e fundador de várias organizações internacionais, como é o caso da Organização das Nações Unidas (ONU), da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), sendo também membro do Conselho da Europa desde 1950. Com a adesão da Turquia, as fronteiras da União Europeia (UE) estender-se-iam a países que são atualmente uma fonte de tensões, colocando-as, irreversivelmente, na agenda externa da UE. 

Qual é, então, o papel da Turquia na atual guerra causada pela invasão da Ucrânia por parte da Rússia? De que lado está o país atualmente liderado por Recep Tayyip Erdoğan?

            A posição turca é, na verdade, ambígua. Embora seja importante para os turcos a manutenção de boas relações com a Ucrânia, dada a relevância estratégica desta cooperação, também a relação de "amor-ódio" que mantém com a Rússia é tida em conta. Ao classificar a invasão da Ucrânia pela Rússia como uma guerra, a Turquia garante que irá impedir a passagem de alguns navios de guerra importantes, decisão esta que poderá condicionar as atividades militares russas na região. Este “encerramento” é possível de acordo com a autoridade atribuída pela Convenção de Montreux (relativa ao tráfego de embarcações nos estreitos de Dardanelos e Bósforo que ligam o Mar Egeu, o Mar Marmara e o Mar Negro). 

            O caminho mais certo é que seja prestado apoio ao povo ucraniano, dado que existe uma completa cooperação entre os dois Estados. A Turquia é o maior investidor externo da Ucrânia, sendo que o volume de trocas comerciais atinge os 5 mil milhões,  prevendo-se uma duplicação deste valor. Soma-se ainda o facto de muitos dos meios de defesa aérea- drones - usados pela Ucrânia contra os separatistas russos serem de origem russa, contudo a produção dos seus componentes é feita na indústria ucraniana. Outro aspeto estruturante na tomada de posição turca é a sua pertença à NATO. A atual guerra tem lugar na fronteira mais a Leste do território da NATO e muitos dos Estados pertencentes à aliança temem que Vladimir Putin os considere o próximo alvo. O próprio presidente ucraniano afirma que será uma questão de tempo até que misseis russos caiam no território da NATO. A queda de um míssil a cerca de 25km da fronteira com a Polónia colocou a Aliança Atlântica em sobressalto. A intervenção da NATO no conflito poderia significar o início de uma III Guerra Mundial, cenário este que tanto a NATO, como a ONU e a União Europeia querem evitar a qualquer custo.

Todavia, não é benéfico para a Turquia opor-se à Rússia, até porque depende de Moscovo em setores estratégicos, como o energético. O governo turco recrimina a invasão, mas não quer, certamente, comprometer novos acordos nem hostilizar a relação. Neste sentido, a Turquia procurará sempre defender o “status quo” na região, prestando apoio à Ucrânia, mas empenhando-se em não enfurecer o Kremlin. No entanto, as afirmações do Presidente Erdoğan sobre nunca reconhecer uma eventual perda de soberania ucraniana podem destabilizar a aliança.

Ainda numa fase muito inicial deste conflito, o Presidente Erdoğan e o Ministro dos Negócios Estrangeiros Mevlüt Çavuşoğlu ofereceram o seu país como potencial território mediador entre as duas nações em guerra, oferta esta inicialmente rejeitada pelo Kremlin. Posteriormente, este encontro acabou por tomar lugar em Antália (Turquia).  O presidente turco apelou, por diversas vezes, a Putin para que seja encontrada uma solução com base nos Acordos de Minsk. É possível que, de facto, a Turquia venha a ter um papel decisivo na mediação da paz, uma vez terminada a invasão russa. 

    Em suma, os Estados Unidos da América e os seus aliados europeus lutam para impedir o escalar da invasão da Ucrânia pela Rússia sem recurso à força militar, optando pelo caminho da diplomacia. Existe apenas um Estado-Membro da Nato que, por duas vezes, conseguiu persuadir o Kremlin através desta tática: a Turquia. Nos últimos anos, assistiu-se a uma aproximação entre a Turquia e a Rússia que poderia colocar em causa a posição atual do primeiro face à invasão russa. Não obstante, é imprescindível que tenhamos em conta todo o “background” histórico de relações entre os dois países, desde as disputas pela região do Mar Negro à rejeição da anexação da Crimeia por Moscovo. Não esquecendo a adesão da Turquia à NATO que a obriga a “alinhar” naquelas que são as diretrizes e posições defendidas pela Aliança Atlântica.

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