A equação trilateral da Índia, China e Bangladesh: como a Belt and Road Initiative aumenta as tensões


    

    RAFAELA NECO argumenta que a Belt and Road Initiative contribuiu para a economia mundial e o comércio internacional, mas permitiu que o conflito indo-chinês se agravasse quando a China se envolveu com um antigo aliado indiano – Bangladesh.

    Opositores sérios à iniciativa na Ásia incluem a Índia. Como uma parceria chave na Belt and Road Initiative (BRI) entre a China e o Paquistão, uma nação que a China considera ser uma aliança duradoura, o Economic Corridor China-Paquistão fica perto da disputada região da Caxemira, criando uma aliança de dois vizinhos com armas nucleares, forjando laços territoriais na fronteira norte da Índia. 

    A disputa não é unicamente exclusiva a Caxemira, sendo que em exemplos mais recentes se destacam as 14 rodadas de negociações militares e diplomáticas em junho de 2020 entre tropas indianas e chinesas no vale do rio Galwan, que deixou pelo menos 20 soldados indianos mortos. Mais tarde, os militares chineses disseram que quatro de seus soldados foram mortos. O vale de Galwan, na região leste de Ladakh, é um dos muitos pontos de conflito entre os dois lados ao longo da fronteira de fato conhecida como Linha de Controle Real (LAC).

    debt trap diplomacy é a acusação de que a China usa a BRI como parte de uma estratégia global manipuladora, em que financia grandes projetos de infraestrutura em países em desenvolvimento com empréstimos insustentáveis ​​e, de seguida, utiliza a dívida para obter influência sobre esses governos. A acusação foi desencadeada por projetos como o Hambantota Port Development no Sri Lanka. O governo do Sri Lanka não conseguiu dar resposta aos empréstimos chineses que financiaram o projeto, e o porto foi entregue aos chineses num arrendamento de 99 anos em 2017.

    Quinze diferentes ministérios do governo chinês reivindicam algum tipo de responsabilidade pelos projetos da BRI:  as províncias chinesas têm as suas próprias agendas, negócios e projetos concorrentes; diplomatas chineses inscrevem governos clientes em grandes projetos para demonstrar lealdade ao partido em vez de promover um projeto viável; e mesmo o governo central chinês ainda não conseguiu produzir uma lista de quais projetos fazem parte da BRI e quais não fazem. Isto faz parte de uma questão mais ampla da natureza opaca da BRI e dos empréstimos sobre os quais ela é construída. O governo chinês nunca publicou informações detalhadas sobre o tamanho e os termos dos empréstimos da BRI. Esse vácuo de informação alimenta a confusão e a desconfiança.

    O Bangladesh está cercado pela diplomacia económica e de defesa da China. Além de ser o principal investidor de Dhaka, a China também se comprometeu a conceder acesso isento de impostos a 97% das importações de Bangladesh no final de 2020 (34% das suas importações totais). Pior ainda, a relação antiga da Índia com o Bangladesh exalta os seus laços profundos, que contrasta fortemente com o modelo de não interferência da China, reforçado por grandes gastos, levou a um profundo ressentimento nas mentes dos cidadãos comuns. Alguns analistas também veem a crescente proximidade de Pequim com Bangladesh como parte dos seus esforços para diluir o relacionamento da Índia com países vizinhos, incluindo Sri Lanka, Nepal e Maldivas.

    A China injetou mais dinheiro em Bangladesh do que qualquer outro país nos últimos dois anos. Bangladesh registrou um influxo recorde de investimento estrangeiro direto (IED) em 2018, com o país atraindo cerca de 3,6 bilhões de dólares americanos em IED, 68% a mais do que no ano anterior, de acordo com um relatório da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD). A China responde unicamente por quase um terço desse investimento, no valor de mais de 1 bilhão de dólares americanos.

    O Bangladesh, agora, depende cada vez mais do dinheiro chinês para atingir a sua meta ambiciosa de produzir 24000 megawatts de energia até o final deste ano. A Ponte Padma, um importante projeto rodoferroviário sobre o rio Padma, está a ser construída pela China Major Bridge Engineering Company. De acordo com o Stockholm International Peace Research Institute, o Bangladesh adquiriu cerca de 17% de todas as exportações militares chinesas de 2016 a 2020, tornando-se o segundo maior cliente de armas da China, depois do Paquistão.

    O que complica ainda mais as coisas é o que ocorreu em 2019 entre a Índia e Bangladesh, quando as autoridades reconheceram em particular uma tensão devido à Lei de Emenda à Cidadania (CAA) e ao Registro Nacional de Cidadãos (NRC), apesar do primeiro-ministro Narendra Modi e Hasina se referirem aos laços Índia-Bangladesh um 'shonali odhyay' (capítulo de ouro)

    Quando se trata de um país menor cercado de gigantes, a BRI apresenta a oportunidade de adquirir uma melhor posição dentro da dinâmica da região. Pequim consegue fornecer capital (muito necessário), e isso aumenta a competitividade de outros países, o que acaba por favorecer o Bangladesh em pouco tempo.

    No entanto, a habilidade e a eficiência necessárias para equilibrar duas grandes potências não são fáceis para o Bangladesh. Diferentes esferas políticas da BRI comentam sobre a urgente necessidade de harmonia, para garantir que as pequenas nuances das ações das grandes potências não causem grandes alterações nos países presos entre elas.

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